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terça-feira, 3 de junho de 2008

Divulgação científica

Falando com uma amiga minha por MSN essa semana, acabei divulgando um certo blog que fala de ciência, filosofia e coisas do gênero, com a ressalva de que era legível. A resposta dela veio em forma de pergunta: dá para um leigo ler?

Esta pergunta representa bem o estado atual das ciências no mundo. Geralmente, idealiza-se que elas são domínio do cientista, e que pessoas não iniciadas em seus meios são incapazes de compreender a quantidade absurda de dados e teorias. Acho que isto é falha nossa, pois ajudamos a perpetuar este modelo elitista de conhecimento, onde os acadêmicos pesquisam e o resto da população acredita no que eles dizem. Não deveria ser assim, em nenhum aspecto.

Karl Popper, considerado o maior filósofo da ciência do século passado, postulou que, para que uma determinada disciplina ou campo de pesquisa possa ser considerada científica, é necessário que seus postulados teóricos sejam passiveis de teste e falseabilidade. Em outras palavras, que possam ser refutados em favor de postulados melhores. Eu acrescentaria outra característica das ciências sérias: elas podem ser explicadas para qualquer um, numa linguagem relativamente simples e pouco técnica.

OK, admito que essa minha afirmação é bem contestável. Afinal, como poderíamos explicar Física Quântica Teórica para pessoas que nunca estudaram isso na vida, e que no máximo assistiram “O Segredo”, um filme que todo bom físico deseja ver banido da existência? Como não quero entrar em polêmica sobre o filme, e por que não sei lá muita coisa de Física, não sei como fazer isso. Entretanto, em se tratando de Psicologia, Psiquiatria e Neurociências, acredito que isto não é apenas possível de ser feito, mas necessário.

Até o momento, toda boa teoria que li era inteligível – era possível de entender com apenas uma leitura atenta. Nem toda a teoria clara é boa, mas toda teoria boa é clara. Posso não gostar tanto assim de Freud, mas devo admitir que suas proposições são boas, que colaboraram com o progresso da ciência psicológica de muitas maneiras, e, principalmente, que estão expostas de forma a não deixar margem para dúvidas. E mesmo que a teoria seja um pouco indigesta, é possível eu pedir para alguém que entenda mais do assunto me explicar e me recomendar outras leituras para aprofundar meus conhecimentos. No caso das pseudociências, isto não acontece, por que geralmente os textos são truncados e mal escritos (eu diria até que de propósito), e mesmo que se peça ajuda para alguém que entenda da matéria, esta pessoa não irá explicar, por que: 1) o assunto é complexo demais para ser reduzido a poucos tópicos, e fazer isso seria mutilar a teoria; 2) ela também não sabe explicar, mas não quer perder a pose de entendido. Nas vezes que pedi explicações sobre pseudociências, ouvi a primeira alternativa, mas tenho fortes motivos para acreditar que a segunda é mais verdadeira.

Além de tudo isso que já falei, divulgação científica é legal! Se não fosse pelos caras que se prestam a transformar a ciência em uma complexidade mais compreensível como Lévi-Strauss fala, eu saberia muito pouco sobre câncer, física de partículas ou até mesmo minhas queridas Neurociências. São, sem dúvida, assuntos bem complexos, mas que dizem respeito a todos nós. Sou suspeito para falar, mas acredito que todos em nossa sociedade, não importa qual profissão decidam seguir, deveriam ter uma formação científica sólida, para poder entender o que se passa nos confins da pesquisa avançada, e compreender como isto pode afetar-nos. No Ensino Fundamental temos uma aula sobre bichinhos, plantinhas, átomos e tubos de Becker que se chama “Ciência”. No Ensino Médio, ela se desdobra em Biologia, Física e Química, e por mais interessantes que possam ser, são insuficientes, pois aprendemos apenas o que é tomado como certo – só vemos coisas as coisas velhas, e dificilmente abordam-se desdobramentos recentes nestas áreas (eu aprendi, por exemplo, que o número de neurônios mantém-se constante ao longo da vida, quando não é bem assim). Além disso, saí-se dessas aulas com a impressão de que a ciência é a portadora da verdade, que cientistas sabem tudo, quando é justamente o contrário: cientistas não sabem nada, e é por isso que pesquisam! Por que pesquisar o que já se sabe?

A divulgação científica está aí para popularizar a pesquisa e a ciência entre as pessoas leigas, que não trabalham em áreas tão especializadas. Pode parecer um trabalho bobo, até mesmo simplório, ficar falando em termos simples para pessoas que não sabem muito do assunto. Entretanto, acredito isto ser fundamental, não só para tornar a ciência mais palatável e divulgada, mas para criar o tipo de sociedade democrática e crítica que desejamos.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Psicanálise e (alguns dos) Seus Problemas

Andarilho diz:

Agora eu estou fazendo um relatório sobre o seminário do Mr. Antivirus, Norton. E ele é lacaniano. Então estou estudando Lacan por tabela

Marcelo Duarte diz:

Sim, sim. Eu tenho aula com ele. Mas segunda feira eu me meti.

Andarilho diz:

Fale-me mais a respeito.

Marcelo Duarte diz:

Eu dei umas encurraladas nele. O bom desse professor é que ele não é fanático, ele sabe das limitações da teoria. Tipo, eu questionei alguns dos fundamentos da teoria. A concepção estrutural do sujeito. Mas isso foi só dúvida. Eu critiquei mesmo quando ele falou da clínica porque, honestamente, a psicanálise como método acaba colocando todo mundo em análise, se puder. E ele meio que teve que admitir isso. E eu também critiquei uma outra coisa que ele colocou lá que era a incomunicabilidade existente entre as teorias.

Andarilho diz:

É... se for comparar uma coisa tipo TCC ou ACP com Psicanálise lacaniana, realmente não tem diálogo.

Marcelo Duarte diz:

Sim. E qual o motivo disso?

Andarilho diz:

Eu digo que é frescura.

Marcelo Duarte diz:

Cada teoria trata de um objeto diferente. E eu até acredito que o objeto Homem é um objeto construído, não está dado. Mas concomitantemente a isso, deveria haver um esforço de conciliação. Porque o objeto pode não ser exatamente o mesmo. Mas também não é inteiramente diferente.

Andarilho diz:

Mas daí tem que existir uma vontade (não quero usar "desejo" nessa conversa) de por as duas teorias no mesmo plano. Tipo, fazer um teste de eficácia, comparando clínica lacaniana e TCC no tratamento de esquizofrenia. Definir alguns pontos importantes da terapia, quanto tempo deve durar, elaborar manuais de conduta para as duas terapias. Enfim, fazer todas aquelas coisas empíricas que são altamente criticáveis por limitarem demais a terapia, mas que servem pra comparar duas técnicas e ver no que elas são eficazes. Só que eu duvido que exista algum lacaniano que vá fazer qualquer uma das coisas que eu listei. Pontos importantes da terapia? Transferência, e o Lacan escreveu um seminário inteiro sobre isso, que deve ser completamente enrolado e não dizer nada. Tempo de duração? Se possível, ad infinitum.

Marcelo Duarte diz:

Sim, sim. Mas eu nem digo da terapia. Falo mais da concepção teórica do sujeito, que é anterior à terapia.

Andarilho diz:

Isso entraria no "manual" - que daria tipo um código de conduta para o terapeuta durante sessão. Teria que escrever essas coisas de forma simples, clara e direta. E da última vez que a gente pediu uma cadeira assim para o departamento de Psicanálise, a gente teve que ouvir que é impossível fazer uma introdução à Psicanálise - tem que aprender por transferência. Em outras palavras, tem que ser psicanalista pra entender psicanálise.

Marcelo Duarte diz:

Sim. Mas isso aí é mentira. Hoje no meu estágio, já que tudo o que eu ia fazer foi cancelado, eu peguei o meu orientador para esclarecer algumas coisas que foram vistas em MEDEP. E ele basicamente desenhou para mim um diagrama sobre como é que as diferentes estruturas da personalidade se davam e porquê. Claro que ultrasimplificado. Mas foi bem didático.

Andarilho diz:

Ele é psicanalista teu orientador?

Marcelo Duarte diz:

Sim, é um lacaniano afu. Vai ver que como ele não é acadêmico, ele não está condicionado a ser tão enrolador quanto os professores. Só não é tão afu porque ele trabalha no posto.

Andarilho diz:

É, eu pensei que como ele trabalha no mundo real ele não tem tanto tempo pra viajar como nossos professores. Ele deve ver na prática que a teoria lacaniana não funciona (exceto retroativamente), e abandona o que não serve.

Marcelo Duarte diz:

Humm... Não teria tanta certeza.

Andarilho diz:

Quais as tuas hipóteses a respeito disso?

Marcelo Duarte diz:

Olha cara, tem uma hipótese que eu tenho que é a seguinte: A terapia psicanalítica funciona. Tipo, "tudo vai". Grande parte do que faz toda a questão terapêutica funcionar é a própria Terapia, entendida assim: Existe Terapia Psicanalítica, Terapia Humanista, Terapia Cognitiva, etc. Um dos componentes desse binômio é a Terapia. O outro é a linha teórica. Me consta que uma terapia, só por ser Terapia, já tem funcionalidade por si só. Dá pra chamar isso de placebo. Ou não, também. Mas não importa. Quanto ao restante, a parte psicanalítica, ou mesmo a lacaniana, pode funcionar em alguns casos, em outros nem tanto. Mas mesmo no contexto da transferência, é muito difícil avaliar o quanto a terapia está funcionando ou não. Muitas vezes o paciente e o terapeuta discordam sobre essa questão. E eles são os que mais deveriam saber. E mesmo que pareça não funcionar é pouco provável que o psicanalista vá descartar partes de sua teoria baseado nisso. Muito mais fácil é encontrar outro culpado. E desconfio que esse seja o caso para terapeutas de outras linhas também.

Andarilho diz:

Hmmm... Cara, tu já leu o artigo do Seligman sobre eficiência de psicoterapia?

Marcelo Duarte diz:

Aquele famoso que teve o estudo na inglaterra e concluiu que tudo meio que funcionava?

Andarilho diz:

Esse mesmo, que concluiu que, no final das contas, todos os tipos de psicoterapia estudados eram igualmente eficientes, apesar de nem todos serem eficazes pra muita coisa. A partir disso e de outras coisas, o Seligman formulou uma hipótese (ou teoria, sei lá) muito parecida com a tua primeira: que todos os tipos de terapia (ou de terapeuta) compartilham um núcleo comum de práticas. Ele chamou isso de "Práticas Profundas", por que elas estão além da teoria empregada. O Rogers já falava disso. Ele dizia que um terapeuta precisa ser empático, aceitar positivamente e de forma incondicional o paciente e ser congruente (fazer o que fala; falar o que faz). Esses três pontos seriam essenciais e suficientes pra uma terapia "dar certo" (seja lá o que isso signifique). Acho que essa lista é bem completinha, mas pode faltar alguma coisa. E, partindo dessa listinha, qualquer relacionamento pode ser terapêutico.

Marcelo Duarte diz:

O negócio do "incondicional" é controverso.

Andarilho diz:

Pois é. Por "incondicional" dá pra entender muita coisa. E dá pra argumentar que, a partir do momento que o terapeuta tenta mudar um comportamento do paciente, a aceitação dele não é mais incondicional. Mas enfim, tem que aceitar o paciente.

Marcelo Duarte diz:

Sim. Mas de qualquer forma, sejam esses os elementos ou não, o fato é que há algo em comum às terapias. E que faz a coisa andar.

Andarilho diz:

Sim. E talvez essas coisas em comum venham mais dos terapeutas em si do que da teoria.

Marcelo Duarte diz:

Mas eu discordo quanto ao "suficiente". Eu acho que o segundo elemento do binômio, a linha teórica, também conta. Alguns tipos de problema simplesmente não vão ser resolvidos com um sorrisinho empático. Tem algumas coisas que são pontuais, que não dá pra resolver de qualquer jeito.

Andarilho diz:

É, não dá pra tratar TOC só com abraço.

Marcelo Duarte diz:

Exato.

Andarilho diz:

Concordo contigo. Mas a partir do que eu sei de Rogers, o que ele quis dizer por "suficiente" é proporcionar auto-atualização (crescimento pessoal). O que é uma coisa bem diferente de tratar TOC, ou anorexia.

Marcelo Duarte diz:

Ah, tá. Auto-atualização pode ser.

Andarilho diz:

Por que um cara cuja maior preocupação é o crescimento pessoal não tem muita coisa com que se preocupar.

Marcelo Duarte diz:

Sim, sim.

Andarilho diz:

Talvez esses três pontos não sejam "suficientes", mas são necessários pra qualquer tipo de terapia

Marcelo Duarte diz:

É. Pensando generalísticamente, pode ser, com suas devidas exceções. Porque tem terapia que nem é tão empática mais vai igual. Sempre há exceções em termos de relações humanas. Mas certamente podemos dizer que são linhas gerais que têm sua importância ao constituir uma base terapêutica.

Andarilho diz:

Eu pensei no caso do psicanalista roots que se nega a apertar a mão do cliente pra não atrapalhar a análise, e que essa análise mesmo assim beneficia o cliente.

Marcelo Duarte diz:

Ou quando o cara tá deitado no divã olhando pro teto, não tá rolando muita empatia ali na mancha da pintura. Mas eu acho que um dos maiores problemas da terapia psicanalítica é ético, não ontológico ou metodológico.

Andarilho diz:

Que problema ético seria esse?

Marcelo Duarte diz:

O problema ético que eu vejo na verdade é mais de um. Começa pela prática de querer desenterrar problemas que antes não estavam manifestos. Procurar conflitos na pessoa. Não limitar o escopo de sua terapia e, por conseqüência, o poder de influência do terapeuta. Também não concordo com o lugar de saber não-compartilhado que o terapeuta assume. Tem muita coisa que vai rolar na contratransferência de um psicanalista que pode ser mais prejudicial do que benéfico.

Andarilho diz:

Pois é. Nesse artigo do Norton que eu li pra fazer o relatório, ele cita Lacan (viu que eu tava estudando por tabela?), que diz que a análise só vai adiante se o analisando se colocar num lugar de não-saber. Tu tem que colocar o analista numa posição divina pra daí se beneficiar do saber dele.

Marcelo Duarte diz:

Exato. E isso é uma das coisas que eu mais discordo.

Andarilho diz:

Sei lá, daí fica fácil pro analista, já que ele nunca vai ser questionado se funcionar assim.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Ciência e Religião

É inato no ser humano buscar a verdade – considero isso um fato universal a todas as pessoas de todos os tempos. Entretanto, o mesmo não pode ser dito dos meios utilizados para buscar essa verdade. Atualmente, existem dois caminhos majoritários, que apesar de não serem auto-excludentes, frequentemente são colocados como exatos opostos: ciência e religião. Ambos são meios válidos para apreender a realidade do mundo, entretanto, diferem radicalmente no modo de funcionar.

A ciência trabalha com hipóteses, e seu princípio fundamental é a dúvida, pois um “cientista sem uma questão não é ninguém” diria Aristóteles. Com base no falseamento, o cientista busca alcançar um conhecimento mais sólido e válido, partindo do que já era previamente conhecido. Trocando em miúdos, o cientista formula uma hipótese, desenvolve uma metodologia para testá-la e então, baseado nos testes empíricos, confirma, refuta ou reformula sua hipótese original. A religião, por outro lado, é muito mais simples: um representante do poder divino é imbuído com o conhecimento eterno, e então ele o transmite para outras pessoas, que acreditam ou não no que lhe dizem. Digo mais uma vez que ambos os caminhos são maneiras válidas para compreender a realidade e que não são conflitantes entre si, pois a natureza que ambos tentam apreender é qualitativamente diversa. Enquanto a ciência enfoca o mundo material e seus fenômenos, a religião explica o mundo imaterial, transcendente, divino.

O conflito que atualmente existe entre estas duas vias é o desejo político de alguns de, utilizando-se de seus métodos específicos, refutar os pressupostos do outro (1). Por exemplo, muitos cientistas de renome como Richard Dawkins tem efetuado o que se pode chamar de “cruzada” contra as igrejas evangélicas. Mas devo dizer que quem começou a briga foram os evangélicos, que querem a todo custo que seja ensinado nas aulas de ciências a Teoria do Design Inteligente – um nome bonito para Criacionismo – com status de igualdade com a Teoria da Evolução. Dawkins, um biólogo evolucionista, não poderia deixar barato.

E apesar de ter dito anteriormente que ciência e religião são caminhos igualmente válidos e que podem conviver pacificamente, acredito que não podemos confundi-los. Sendo mais específico, não podemos deixar a religião tomar o lugar da ciência, muito menos a ciência tornar-se uma religião.

Grosseiramente falando, a ciência lida com incertezas, e assim progride, trazendo maior conforto e saber para a humanidade, enquanto a religião lida com certezas, permanece imutável e dá segurança e solidez para aqueles que a procuram. Para quem estuda alguma disciplina científica ou possui um apurado pensamento lógico, é evidente que cada vez mais a ciência se encarregará de responder questões que anteriormente pertenciam à alçada da religião. A astronomia hoje é considerada uma disciplina solidamente estabelecida como ciência, e ninguém (de bom senso) questiona se a terra é redonda ou se o sol é o centro do sistema solar. Existem sólidas evidências que corroboram para que a Teoria da Evolução seja considerada “verdadeira”: descobriram-se muitos fósseis de animais extintos que deram “origem” a espécies atuais, foi observada a seleção das populações melhor adaptadas para viver em determinados ambientes e a extinção de espécies e subespécies mal-adaptadas ao seu habitat. Por ser impossível criar um experimento que manipule diretamente a Evolução, não podemos considerá-la uma teoria absolutamente comprovada, mas temos muitos motivos para acreditar que é uma metateoria boa demais para ser refutada. Contudo, Darwin é mais polêmico que Copérnico por que na Bíblia não há um tratado de astronomia, mas há uma descrição bastante detalhada de como Deus criou todos os animais em um dia, o homem no outro e descansou no último. Por refutar a história bíblica do livro de Gênesis, que narra a criação do universo, o Evolucionismo é uma heresia, e põe em xeque a fé de bilhões (2) de pessoas de que um Deus todo poderoso existe. Pessoalmente, acredito que a Teoria da Evolução não é tão poderosa assim, e não consegue refutar a existência de Deus. Ainda assim, considerando que muitas pessoas religiosas apresentam pensamento “preto ou branco”, falsear um aspecto menor de sua crença é o suficiente para deixar milhões em pé de guerra.

Utilizando-se do argumento de que a Evolução é “apenas uma” teoria dentre muitas, os criacionistas defendem que a Teoria do Design Inteligente (que um ser superior criara todos os seres vivos do planeta) deve ser ensinada como alternativa nas aulas de biologia. Já falei que a Evolução não é só “apenas uma” teoria, mas A Teoria biológica mais versátil e avançada de que dispomos, tanto que ela tem sido generalizada para muitos outros campos, entre eles a Psicologia. O Design Inteligente, por outro lado, é apenas a reformulação de um dogma milenar, que explicou e deu conforto para muitas pessoas no passado, mas que não possui nenhuma base científica sólida – apenas o desejo da parte de muitos para que seja verdade. Mas como disse John Adams, fatos são coisas teimosas, por que continuam sendo fatos apesar de nossa vontade.

Não concordo com tudo o que Dawkins e outros de sua classe dizem, mas acho perfeitamente razoável que eles armem um contra-ataque filosófico forte contra os crentes. Abandonar uma teoria versátil, dinâmica, flexível e que permite que inúmeras pesquisas novas se desenvolvam a partir dela, e substituí-la por outra engessada, rígida e tão conservadora que não permitiria nenhuma nova descoberta (3) seria uma catástrofe. Aplicar o rígido pensamento religioso para a ciência não pode trazer nada de positivo, justamente por impedir inovações, e estimular o comodismo intelectual.

E apesar desta minha apaixonada defesa do pensamento científico, sinto-me no dever de apontar os riscos que ele encerra. Considero a verdadeira Ciência inatacável, pois um cientista verdadeiro, comprometido com a busca da verdade, honesto consigo mesmo e com os demais beneficiará o mundo muito mais do que o prejudicará, creia ele em Deus ou não, pois sua conduta o coloca acima de disputas políticas mesquinhas. Por outro lado, muitos centros de pesquisa científica fazem qualquer outra coisa, menos Ciência. De fato, é muito comum uma disciplina anteriormente científica transformar-se em um culto organizado em torno de suas “descobertas”. O exemplo mais bem-acabado disto é a Psicanálise. Esta disciplina, criada no fim do século XIX por Sigmund Freud, tinha originalmente o intuito de estudar os processos psicológicos profundos dos seres humanos. Freud considerava o método científico o melhor disponível para estudar qualquer coisa, e a Psicanálise foi estruturada de forma a ser uma ciência natural. Se isso tornou-se realidade, é outra história. Como disse antes, a ciência lida com hipóteses mutáveis, e a religião lida com certezas permanentes. Freud aparentemente esqueceu-se disso, e quem quisesse se tornar um psicanalista deveria aceitar incondicionalmente os pressupostos psicanalíticos. Quem discordava deixava de ser discípulo e era expulso do clubinho. Adler, Jung e Reich que o digam. As contribuições do velho Sigmund para a Psicologia são inestimáveis, pois os questionamentos feitos por ele permitiram que muitas e muitas pesquisas novas florescessem, e o conhecimento que possuímos sobre nós mesmos seria muito menor se não fossem os insights freudianos. Entretanto, Freud poderia ter feito uma colaboração muito maior para a humanidade se tivesse considerado a possibilidade de estar errado em algum ponto de sua teoria, e a mantivesse aberta para reformulações propostas por outros que não ele (4). Hoje, a Psicanálise Freudiana Ortodoxa é considerada uma mera pseudociência.

Pseudociências, de maneira geral, são cultos religiosos que se passam por ciências sérias, cujos pressupostos são rígidos, inflexíveis e absolutos, além de contarem com um embasamento empírico muito duvidoso (5). O processo para tornar-se membro de determinado grupo ou movimento pseudocientífico é muito similar ao processo para tornar-se membro de uma igreja. Para poder entender as teorias dele, é necessário primeiro estudá-lo. Não apenas ler os artigos e pensar a respeito, mas fazer cursos, participar de conferências e perder um bom tempo lendo e relendo os textos mais básicos até entender. Depois de tanto dinheiro investido (por que, acredite, esses cursos não são baratos, pelo menos no caso da Psicanálise) e tempo utilizado para melhor compreender as idéias propostas pelo grupo, elas passam a fazer sentido para você – e este conhecimento te difere dos demais mortais e te eleva perante eles. Você se torna um igual perante os demais membros do movimento. Isto se chama “iniciação”. Depois da iniciação, você poderá ler os textos mais avançados, e tornar-se ainda mais erudito e entendido na teoria. Quem não segue este processo não está adequadamente preparado para criticar a teoria, mas o engraçado é que quem faz tudo isso não critica nada! É compreensível, pois deve ser bem humilhante ter que admitir que tudo o que se gastou e investiu foi inútil. É cognitivamente mais econômico ter certeza de que o que lhe ensinaram é absolutamente verdadeiro, e é mais carinhoso ao ego. Karl Jaspers, em seu livro “Introdução ao Pensamento Científico” cita o exemplo de uma discussão que teve com um psicanalista, que alegava que, uma vez que ele, Jaspers, se submetesse à análise, toda a teoria psicanalítica faria sentido para ele. Ou seja, ele precisava colocar-se em posição inferior e receber o conhecimento de fora. O bom existencialista questionou isso na hora. Afinal, qual é a diferença deste processo todo da crisma católica? Começa-se estudando a Bíblia, vai-se crescendo, e no fim do processo, recebe-se a crisma e torna-se um adulto perante Deus. Trocando “Bíblia” por “livro-texto”, “crisma” por “diploma” e “Deus” por “Chefe da Teoria”, temos essencialmente a mesma coisa.

Fazer a crisma não é algo inerentemente negativo, pois é um rito religioso que reconhece-se como tal, e não tem nenhuma pretensão científica (geralmente). Mas com as pseudociências, o buraco é mais embaixo. Estes iniciados em obscuras artes não se contentam em aprender a teoria, mas querem pô-la em prática, geralmente cobrando uma boa grana por isso. Aqui em Porto Alegre existia (ou existe) uma clínica especializada em curar síndrome de down através de exercícios de respiração. Quantas e quais pesquisas comprovam a eficácia destes exercícios? Nenhuma. Quanto deve custar para receber este tratamento? Muito. Levando em conta a relação entre custos e benefícios, é vantajoso para uma mãe desesperada pela condição de sua criança fazer um tratamento assim? Nem financeiramente, muito menos emocionalmente. É bem provável que algum iniciado em Dianética (a pseudociência por trás da Cientologia) possa colocar em risco o emprego, o negócio ou até mesmo a vida de alguém ingênuo o suficiente para pagar por seus serviços. Todo cuidado é pouco em situações como estas.

Os casos que citei são extremos, pois envolvem sentimentos e vidas de seres humanos. Entretanto, há casos mais sutis, onde a única morte é do espírito crítico de estudantes de Ciências Humanas, como Psicologia. Começa-se exigindo que se leiam todos os textos de certa disciplina para então poder criticá-la, que se faça referência aos autores que o professor quer, e pronto! Temos mais alguns seguidores da teoria, que a aceitaram apenas por que ela é misteriosa, complexa, e por ter lido tanto que se passa a acreditar piamente nela (6).

Mas, apesar de tudo que disse, acredito que seja possível que haja uma relação e uma intersecção saudável entre ciência e religião. Apesar de tentarem entender coisas diferentes de formas diferentes, ambas compartilham a busca pela verdade. A religião pode propor os desafios de pesquisa, enquanto que a ciência refuta suas hipóteses. Dogmas imutáveis trazem segurança, mas nos cegam para esta busca. Se as religiões forem capazes de tornarem-se mais flexíveis, autocríticas e questionadoras, provavelmente metade dos conflitos que enfrentamos no mundo hoje perderiam todo o sentido e acabariam. Seria bem melhor viver em um mundo onde as religiões são científicas, e as ciências não são religiosas.




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1. Também ocorrem pesquisas muito interessantes sobre aspectos neurológicos das experiências religiosas, mas que considero muito diferentes dos conflitos abordados neste post.

2. Talvez nem tanto, mas estou me baseando nas estatísticas de que 1,5 bilhão de pessoas são cristãos, e que todos acreditam em tudo o que a Bíblia diz.

3. Sério, alguém por favor me diz como eu posso fazer pesquisas utilizando os pressupostos teóricos da Teoria do Design Inteligente. Confirmações fuleiras da existência de Deus não contam como pesquisa.

4. Dizer que Freud não reformulou sua teoria da psicodinâmica é ignorância. A questão é que só ele podia fazer isto – os seus seguidores deveriam meramente acatar sua decisão.

5. Existem teorias que, apesar de não terem um bom embasamento empírico, seja por serem muito novas ou por não existir interesse em pesquisá-las, são boas e contribuem para o progresso científico. Para não ser injustos com estas teorias, os filósofos da ciência as chama de “protociências” – projetos de ciência. Frequentemente a Psicologia como um todo é considerada uma protociência.

6. Juro que nunca tive aulas assim. É sério.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Senso de Justiça em Primatas

Seguindo a série de descobertas científicas de capacidades “humanas” em animais “inferiores”, venho aqui neste blog falar de uma pesquisa conduzida pelo primatologista Frans de Waal (não, não é o cara dos átomos).

A grande descoberta é que macacos preferem uvas a pepinos. OK, admito que dito desta maneira parece imbecil, mas é só explicar a metodologia do estudo para ver que há mais por trás desta afirmação.

No estudo, dois macacos recebiam um pedaço de pepino ou uma uva como reforçador de uma tarefa simples. Se os dois recebessem pepinos ou uvas, seria como qualquer outro estudo comportamental com animais, eles seriam reforçados e continuariam a realizar a tarefa. Entretanto, quando um macaco recebia uma uva, enquanto o outro recebia um pepino, o que recebia o pepino se rebelava, parava de realizar a tarefa ou se recusava a comer seu prêmio. Este comportamento dito irracional é chamado de “aversão à iniqüidade”, e é considerado uma virtude entre seres humanos. Alimentos que contém mais açúcares, como uvas, são mais valorizados que outros com menores quantidades, como pepinos. Os macacos que recebiam pepinos consideravam-se injustiçados, e recusavam-se a realizar as tarefas até que a divisão de recompensas melhorasse.

Talvez estejamos antropomorfizando os pobres coitados, mas acho que vale lembrar que macacos também elaboram Teorias da Mente (em outras palavras, são capazes de interpretar e tentar prever o comportamento de semelhantes), e que eles são mais inteligentes do que o senso comum supõe. Assim sendo, é bonito ver que não somos apenas nós que desenvolvemos um senso de justiça no reino animal, e que pelo menos algumas espécies de macacos também o fizeram.

Frans de Waal faz um alerta: “Se os macacos já têm problemas em aceitar a desigualdade de renda, pode-se imaginar o que ela faz conosco; cria grandes tensões dentro de uma sociedade, e sabemos que tensões afetam o bem estar psicológico e físico.”

Talvez não nos voltemos para os procariontes, mas para os primatas com certeza.

sábado, 29 de março de 2008

A Reforma Psiquiátrica - Verdades, Mitos e Política

Estava pensando um dia desses sobre o que vejo na faculdade, e o tema da Reforma Psiquiátrica e do Movimento Antimanicomial vieram-me instantaneamente à mente. Tive aulas de Psicologia Social e Políticas Públicas com Simone Paulon, uma das principais pesquisadoras da área, compareci à terceira edição do Mental Tchê em São Lourenço do Sul e muito ouvi meus veteranos falarem a respeito.

Basicamente, os princípios que norteiam a luta antimanicomial são os da humanização dos serviços de saúde mental, e por uma maior descentralização do poder dentro destes serviços, agora concentrados nas mãos dos psiquiatras. O ideal da reforma psiquiátrica é, em outras palavras, garantir que seus usuários sejam tratados como os seres humanos que são, e não como os internos de hospícios tem sido historicamente tratados, como animais. Neste ponto, acho que todos, desde psiquiatras até psicólogos concordariam.

Mas não consigo parar de me questionar se a reforma psiquiátrica até agora empreendida conseguiu fazer o que se propôs. Ela está dando certo?

Com certa freqüência, vejo notícias de jornais falando sobre como usuários de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que deveriam de certa forma “substituir” os hospitais psiquiátricos, são mau atendidos, não recebem seus remédios, que vivem um constante “entra-e-sai” do CAPS. Estes jornais frequentemente defendem que isto não pode continuar desta maneira, e que a única solução seria restabelecer os manicômios. Vários colegas de curso, ao se depararem com tais reportagens, saem bradando que a mídia é “reacionária” e que foi “comprada” pelos psiquiatras. Poderia pensar assim também, e não ter que agoniar-me com as dúvidas que agora me afligem, e ser aceito como mais um feliz estudante de Psicologia com pensamento crítico, mas prefiro ser levemente reacionário e ignorante, e questionar se o que estes jornais afirmam (o mau atendimento de usuários de CAPS) é verdadeiro ou não. E, usando um pouco do abominado senso comum, não vejo o que a mídia teria a ganhar fabricando notícias sobre o sistema substitutivo. Nenhum jabá corporativo valeria a sua credibilidade se este sistema funcionasse perfeitamente.

Admito minha ignorância a respeito deste assunto, pois não conheço nenhum CAPS por dentro, e as poucas coisas que conheci a respeito da reforma psiquiátrica me foram apresentadas por seus defensores, o que torna seu testemunho um tanto quanto suspeito. Sempre que ouvimos um psiquiatra criticar a reforma psiquiátrica, dizemos que ele é “enviesado” e tem “motivações políticas”, pois seu poder com esta reforma esta se esvaindo. Mas por que não dizemos o mesmo quando um psicólogo defende a reforma, pois ele está ganhando poder com ela?

É uma questão complicada. Ouço dizer bastante que por trás de toda teoria técnica há um discurso político. Que os psiquiatras defendem os hospitais psiquiátricos por que nestes eles detêm poder absoluto. Mas isto torna a eficácia das técnicas psiquiátricas nulas, meros epifenômenos do sistema político da saúde mental? Sei que, historicamente, pacientes psiquiátricos foram simplesmente empilhados em prédios sujos e escuros e lá esquecidos, mas será que foi (e é) assim mesmo? Mais uma vez, admito minha ignorância, pois nunca conheci um hospital psiquiátrico de verdade. Fui no São Pedro uma vez, mas acho que não posso tomá-lo como modelo, já que, por ter sido o primeiro do estado, ele é um símbolo da força dos psiquiatras, e portanto é um alvo preferencial dos ataques reformistas. Acho que a Clínica Paulo Guedes de Caxias do Sul seria um melhor exemplo, por ser um tanto quanto ignorada no plano político estadual (nunca me falaram nada a respeito dela. É só São Pedro na cabeça).

Recebi um e-mail uma vez, através da lista do COREP, falando sobre uma dessas reportagens “reacionárias” que saiu n’O Globo do Rio de Janeiro, sobre pacientes psiquiátricos morrendo na rua. Não lembro direito dos detalhes, mas lembro que o autor da mensagem conclamava a todos nós a repudiar a tal da reportagem, e a trabalhar rapidamente para “conter os danos causados” por ela. Por “contenção de danos” neste contexto, imagino que fosse convencer a opinião pública de que a reportagem não refletia a realidade. Não sei se reflete, e confio que meus colegas mais experientes esclareçam este tópico. Mas fico pensando... por que a mensagem deste e-mail era sobre “conter os danos causados” pela reportagem, e não “impedir que mais mortes aconteçam” por causa das falhas do sistema substitutivo? Os argumentos de que não há dados estatísticos sobre as mortes dentro de hospitais psiquiátricos, e que se mantivermos o apoio da opinião pública, a reforma poderá continuar, e a condição geral dos usuários do sistema de saúde mental melhorará foram os primeiros que eu usaria em defesa da contenção de danos e de uma publicidade eficiente. Mas um mestre de Karatê me perguntou durante um treino: o que é melhor: ser eficiente ou parecer eficiente? É uma posição filosófica bem diversa da máxima maquiavélica de que parecer é mais importante do que ser. Além disso, devo admitir que Artes Marciais e Políticas Públicas são domínios bem diversos, e que muitas coisas que se aplicam à uma, não se aplicam á outra. Mas será que parecer é mais importante do que ser?

Dizem que a melhor forma de propaganda é o boca-a-boca: alguém usa seu serviço, gosta, e recomenda para os amigos e conhecidos. Desta maneira, se você for bom no que faz, logo terá uma clientela cativa. Não sei se há estudos confirmando este fenômeno, mas casos anedotais a respeito disto existem por toda parte. Seria demais supor que a melhor publicidade para a reforma psiquiátrica é seu funcionamento eficaz? Cansei de ouvir que “político, tudo é”, para citar ainda outro e-mail que recebi sobre estas pendengas. A parte técnica, prática e funcional não quer dizer absolutamente nada? É só um mal necessário, como o extintor de incêndio obrigatório em todos veículos automotores (que diga-se de passagem, não serve para muita coisa)? Utilizando-me desta lógica, é possível defender a substituição da Psicologia e da Psiquiatria no tratamento de transtornos mentais, e colocar Terapia de Florais em seus lugares. Afinal, não é tudo política? Se eu for um terapeuta floral muito eficiente no campo da política, eu posso passar por cima de todas as pesquisas empíricas irrelevantes e fazer do meu discurso mais importante que todos os outros. Certo?

O que quero questionar não são os objetivos da Luta Antimanicomial, muito nobres, mas seus meios, que, pelo que me parecem, não são lá grande coisa. Claro, os seus defensores conseguiram transformar a reforma psiquiátrica em lei, e isso demonstra grande habilidade e força, especialmente quando se pensa que o adversário principal da reforma seja o cartel médico. Impedir que as freqüentes ondas de ataque vindas do “outro lado” derrubem a lei é outra prova de poder. Mas e os pacientes psiquiátricos, como ficam? Não tenho a menor dúvida de que há milhares de psicólogos, enfermeiros, psiquiatras, terapeutas ocupacionais e outros tantos profissionais que trabalham com saúde mental preocupados com as condições daqueles que procuram sua ajuda. Mas as reportagens que vira e mexe aparecem, falando sobre pacientes de CAPS morrendo feito moscas, por mais questionáveis que possam ser, trazem à tona algo que pode ser verdadeiro: o sistema substitutivo não está dando conta do recado. Isto é verdadeiro realmente? Não sei. De novo devo admitir minha ignorância sobre este assunto, já que não conheço o “front”, e passo (por enquanto) todo meu tempo atrás de livros e polígrafos xerocados. Mas se simplesmente refutarmos estas afirmações como sendo “descabidas”, ou mesmo “reacionárias” e “mentirosas”, sem discutir criticamente o que acontece, vamos tirar os psiquiatras de seus locais de poder, e colocar os psicólogos em outro.E chamar quem é contra isso de desalmado ou coisa pior.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Para além da Política e Opinião

Em um processo científico, a crítica é fundamental. Primeiramente, por que ela permite que o pesquisador seja privilegiado com informações advindas de outros campos, e desse modo, pode enriquecer seu delineamento experimental. Segundo, por que alguns erros óbvios não são tão óbvios quando olhamos muito perto, e alguém mais distanciado pode apontá-los. Portanto, é sempre salutar quando um cientista promove debates sobre pesquisas alheias, pois isto potencializa o progresso. Mas entrar na justiça para proibir uma pesquisa, com a desculpa de “discutir com a sociedade” não é só desonesto, é covarde e mesquinho.

Esse é um assunto antigo, tanto aqui, quanto no Amoladores de Facas. Já cansei de falar a respeito das posições adotadas por muitos dos críticos da pesquisa que será (ou não) realizada por neurocientistas da UFRGS e da PUCRS com meninos internos da FASE, utilizando-se de técnicas como Pet Scan, Eletroencefalograma e Ressonância Magnética. Mas através das discussões de que participei sobre ela, pude notar várias incongruências no discurso destes “campeões dos direitos humanos”.

Michel Foucault, importante filósofo e sociólogo francês, através de suas pesquisas, concluiu que, por trás do discurso psiquiátrico de várias épocas havia um discurso político, que era mais significativo do que o discurso técnico. Por exemplo, era comum que mendigos, bêbados e outros moradores de rua incômodos fossem internados em hospícios, para que não incomodassem a “boa sociedade” com sua visão asquerosa. Por chocante que possa parecer, isto ocorre até hoje. Basta apenas visitar um hospital como o “glorioso” São Pedro, ou o Instituto Psiquiátrico Forense. Foucault apontou algo incômodo, porém verdadeiro, uma verdadeira mancha em nossa sociedade. Mas, como bom guru que se tornou (duvido que por desejo próprio), teve seus ensinamentos devidamente postos no Altar da Certeza.

Numa das primeiras discussões em que me envolvi sobre essa pesquisa, reclamei que os críticos estavam focando-se exclusivamente na política, deixando de lado as questões técnicas. Recebi como resposta “político, sempre é”. Tirei do contexto, o que pode ter desvirtuado seu sentido original, que dizia que posicionar-se contra ou a favor de uma pesquisa é um posicionamento político, mas representa bem o que quero demonstrar. No agora famoso debate da TVCOM sobre este mesmo assunto, Martha Narvaz começou sua parte dizendo exatamente isto aqui:

A gente sabe que existem diferenças de discurso teórico, que são os discursos da biologia, discursos da genética, discursos da psicologia, e dentro da psicologia, tem a psicologia experimental, que pensa diferente de outras linhas teóricas. E a gente sabe que todos esses discursos vão disputar no meio acadêmico a sua condição de verdade.”
(grifo meu)

Este debate deveria ser exibido para todos os calouros de Ciências Humanas da UFRGS, com o título “Como não fazer ao se posicionar em um debate”. Ela é tão ruim debatedora que foi uma dor ter que voltar o vídeo várias vezes para pegar a parte que eu queria. Destaquei a última frase da citação, que considero paradigmática. Em outras palavras, ela diz “nossos discursos valem a mesma coisa, não importa qual seja mais útil, ou empiricamente validada. O que conta é opinião”. Ao longo de todo o debate, diversas vezes ela diz coisas do tipo “é uma opinião minha, pessoal, mas essa pesquisa é eugenista!” Não acredita? Vai lá e olha todos os quatro vídeos. Não sou masoquista pra ficar olhando tudo de novo. Mas enfim, o que ela faz é colocar coisas bem diversas, desde Terapia Cognitivo-Comportamental até Terapia de Florais no mesmo balaio, joga fora todos os experimentos que atestam a eficiência da primeira e colocam em dúvida a da segunda, e diz que o que importa é o discurso político. Quem tiver mais muque é quem está certo (um discurso legitimamente nazista). Peguei pesado, admito, primeiramente por que ela não falou de TCC e de Florais, e muito menos defenderia esta última, mas com este exemplo, pretendo demonstrar o sofisma que ela utilizou como argumento. Se eu quisesse defender que a Terapia de Florais é superior à Terapia Cognitivo-Comportamental, eu utilizaria argumentos muito semelhantes aos da doutoranda Martha.

Desprezar a parte técnica da ciência, e focar-se apenas nos aspectos políticos que envolvem a teoria é perigoso. A História, para quem a Martha apelou quando falou no mr. Hitler, dá um bom exemplo do que aconteceu quando a técnica foi ignorada: Trofim Lysenko. Para quem não conhece esta figura e não está com paciência para ler o artigo da Wikipédia, Lysenko foi um geneticista soviético que decidiu ignorar as descobertas de Gregor Mendel no campo da genética, tirou uma teoria própria do ar, convenceu Stalin que não existia coisa melhor no mundo, expurgou seus rivais teóricos do país,e aplicou suas teorias nas plantações de trigo da União Soviética. O que aconteceu em seguida foi uma queda espantosa na produtividade, falta de alimentos e fome generalizada. O lado que ficou com o velho Mendel conheceu destino mui diferente, a Revolução Verde, o maior salto em produtividade de colheitas. Imaginem se, lá nos idos de 1940, geneticistas ocidentais influenciados por Lysenko começassem a falar que tudo é discurso, e convencessem os presidentes de seus respectivos países a proibirem pesquisas em genética mendeliana, só na lábia?

Em um campo como as Ciências da Saúde, isto é tão ou mais perigoso. As Neurociências tem se mostrado extremamente promissoras nos últimos dez anos, trazendo benefícios concretos para a humanidade, e não para o conceito abstrato de “progresso científico”. Elas têm beneficiado pessoas. Se existe um discurso político por trás das neurociências, da Terapia Cognitivo-Comportamental? Certamente. Estes discursos políticos influenciam os rumos da pesquisa? Qualquer um que trabalha com pesquisa sabe que sim. É o discurso político o fator mais importante por trás da ciência? Não. O fator mais importante é o bem-estar de todos os seres humanos, estejam eles envolvidos ou não no processo científico.

Peguei apenas um extremo da discussão e ampliei-o para tornar meus argumentos mais claros por contraste, mas nem de longe as posições aqui criticadas representam a opinião da maioria. Muitos de meus colegas são contrários a esta pesquisa, por temerem que os meninos envolvidos fossem tratados como absorventes (ignorados depois da pesquisa), que os procedimentos envolvidos acarretassem mal físico ou psicológico, ou que as vias políticas pelas quais os pesquisadores caminharam para ter acesso à FASE fossem duvidosas. Mas nunca endossaram seu boicote. O palestrante do último seminário em pesquisa em psicologia levantou justamente o problema do discurso positivista por trás desta pesquisa, mas rechaçou a idéia de apelar para a Justiça proibir sua realização. Questionou a teoria e os métodos. Baseou-se em opinião e política, mas foi muito além delas. Foi um verdadeiro cientista.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

A Pesquisa Maldita - A Série

Pesquisadores de duas grandes universidades de Porto Alegre propuseram uma pesquisa com meninos infratores internos na Fundação de Atendimento Sócio-Educativo do Rio Grande do Sul (FASE-RS), sobre comportamento violento e neurologia. Seria uma pesquisa como outra qualquer, se não fosse a grata infelicidade de um dos participantes do projeto ser secretário estadual de saúde, e de terem dado uma entrevista para um jornal. Se não fosse por essa conjuntura, provavelmente só ficariamos sabendo desta pesquisa quando o artigo final fosse publicado.

Como provavelmente vocês já sabem do que eu estou falando serei breve: a pesquisa, nem ao menos iniciada, foi alvo de muitas críticas, vindas de psicólogos sociais, antropólogos, educadores e outros profissionais, que a acusaram de dar novo rosto para práticas antigas de extermínio e eugenia.

Coletei na internet todo tipo de texto, favorável, contrário e neutro à pesquisa, vídeos e documentos para fazer uma cronologia dessa farra toda. Poderia ter apenas feito uma síntese dos argumentos mais usados e/ou fortes de cada lado da discussão, mas imaginei que os leitores deste blog prefeririam ir até a fonte das informações, então, coloquei aqui todos os textos que encontrei na íntegra, e com o link para o site onde encontrei.

Aproveitem o catatau de textos sobre o assunto.

A Pesquisa Maldita - Helio Schwartsman Strikes Again

Ciência sob ataque
31/01/2008

Se eu fosse exagerado, diria que a ciência brasileira está sob ataque. Como não sou, parece mais adequado afirmar que ela vem enfrentando percalços imprevistos. Há duas semanas a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, participou de um evento criacionista e, em seguida, defendeu o ensino de teorias "alternativas" ao darwinismo. Poucos dias depois, reportagem da Folha (só para assinantes) mostrava que cerca de uma centena psicólogos, advogados, antropólogos e educadores procurava, através de um abaixo-assinado, impedir um grupo de neurocientistas de levar a cabo pesquisa que pretende esquadrinhar o cérebro de 50 adolescentes homicidas de Porto Alegre em busca de marcadores biológicos.

Investidas anticientíficas não são propriamente uma novidade, que o digam Giordano Bruno e Galileu Galilei. Mesmo em tempos de maior liberdade intelectual, como a Grécia Antiga, experimentadores do quilate de Eratóstenes e Arquimedes enfrentavam um certo desdém de filósofos puramente especulativos, então mais afinados com o "Zeitgeist". O inquietante no caso brasileiro é que os ataques partam, senão de aliados, ao menos de grupos e instituições que deveriam em tese apoiar a ciência. Afinal, Marina Silva, na condição de ministra, representa o Estado brasileiro. Já psicólogos, antropólogos e pedagogos, embora não costumem militar nas fileiras da "hard science", são --ou deveriam ser-- aquilo que antigamente chamávamos de "Geistwissenschaftler", ou seja, simplificando um pouco, cientistas sociais, os quais deveriam, pelo menos etimologicamente, estar comprometidos com o método científico.

Comecemos pelo caso mais gritante, que é o dos patrulheiros epistemológicos. De minha parte, considero a neurociência um campo fértil e promissor, do qual tem emergido muito material interessante para "insights" e reflexões. Admito, entretanto, que nem todo mundo precisa pensar como eu. É perfeitamente possível tachar sociobiologia, psicologia evolutiva e genética como "reducionistas" --o que quer que isso signifique. Mais até, é legítimo preocupar-se com o efeito que determinadas descobertas possam ter sobre a sociedade. Imagine-se, por hipótese, que se desenvolva um método de diagnosticar, ainda antes do nascimento, indivíduos mais propensos a tornar-se criminosos quando adultos. Tais embriões poderiam ser abortados? Se sim, por decisão de quem? Do Estado? Dos pais? São questões apaixonantemente controversas. E, por mais intransigentes que possamos ser na defesa da vida e da pluralidade humanas, nada justifica deixar de realizar um estudo cujos protocolos éticos se mostrem adequados, como é o caso do experimento gaúcho. Ele não implica nenhum risco ponderável para as "cobaias" e só ocorrerá se os pesquisadores obtiverem o consentimento esclarecido dos jovens e de seus pais ou responsáveis e também a autorização da Justiça.

Não é porque os nazistas cometeram atrocidades evocando a genética --equivocadamente, ressalte-se-- que devemos renunciar a compreendê-la. Se um dia investigações nesse campo levarem a tecnologias eugênicas, precisaremos discutir caso a caso a moralidade de sua aplicação. De minha parte, como princípio geral, acho que pais devem poder escolher se vão ou não ter filhos com determinadas doenças incapacitantes.

Qualquer que seja nossa posição pessoal, quer acreditemos que a vida é um dom de Deus, quer a consideremos o encontro inopinado de átomos de carbono com um pouco hidrogênio e oxigênio, não faz muito sentido que um cientista social --ou qualquer outra pessoa minimamente ilustrada-- se oponha à realização de um experimento capaz de ampliar nosso conhecimento por temor das implicações que tal conhecimento possa ter. Se os nossos solertes "Geistwissenschaftler" estão tão certos de que a empreitada dos neurocientistas dará com os burros n'água --possibilidade bastante real-- que critiquem, como convém ao método científico, os resultados do experimento, não sua realização. Se estão tão certos de que a neurociência encerra o ovo da serpente, que o demonstrem com base em evidências e encadeamentos lógicos, não com ilações e palavras de ordem. Minha sensação é a de que essa gente, ao defender a proibição pura e simples, repete os argumentos com os quais a Igreja Católica impedia a dissecação de cadáveres e promovia outros vetos francamente obscurantistas.

Voltemos agora ao mais delicado caso do criacionismo ministerial. Marina Silva tem, como cidadã, o direito de professar a fé que bem desejar. Mais até, não é porque se tornou ministra de um Estado nominalmente laico que precisaria deixar de comparecer aos cultos de sua igreja, a Assembléia de Deus. Ela, entretanto, avançou o sinal quando participou do 3º Simpósio sobre Criacionismo e Mídia, promovido pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo, e, à saída, ainda deu uma entrevista na qual, no melhor estilo dos "neocons" dos EUA, sustentou que visões de mundo criacionistas devem ser ensinadas nas escolas, para que os alunos possam decidir por si mesmos.

Estamos aqui diante de dois problemas. Em primeiro lugar, Marina deveria ter-se recusado a participar do evento, pela simples razão de que não foi convidada para falar na condição de simples fiel da Assembléia, ou teóloga, mas sim por ser ministra do Meio Ambiente, ou seja, uma representante do Estado. E, nos termos do artigo 19 da Constituição, é vedado ao Estado "estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança". Essa, entretanto, é a falta menos grave, que seria facilmente perdoável, se a ministra não tivesse em suas declarações abraçado também a pedagogia ultraconservadora, que pretende transformar fatos comprováveis em comprovados em questões abertas a escrutínio religioso.

Não conheço as opiniões hidrostáticas do papa, mas não importa o que ele pense ou decrete acerca da fervura da água, o fato é e será que, em condições normais de temperatura e pressão, ela ferve a 100ºC. De modo análogo, independentemente do discurso religioso, as bases gerais da teoria evolutiva mais ou menos como postulada por Charles Darwin no século 19 estão cabalmente comprovadas. Falácias criacionistas não vão mudar isso. O rol de evidências pró-Darwin é extenso. Vai da totalidade do registro fóssil até aqui coletado --e nunca falseado por nenhum despojo geologicamente impossível_ até a capacidade de fazer previsões sobre o futuro, como o surgimento de cepas de bactérias resistentes a novas classes de antibióticos.

O criacionismo em sua mais nova roupagem --o tal do design inteligente-- sustenta que a evolução é "apenas" uma teoria e cheia de supostas dificuldades, como se tudo em ciência não fosse "apenas uma teoria", aí incluída a teoria da gravidade. Seu argumento básico é o de que seres vivos são complexos demais para ter surgido "por acaso": se eu encontro um relógio, a sutileza e a precisão das roldanas e engrenagens, me autoriza a supor um relojoeiro; de modo análogo a arquitetura de estruturas como asas e olhos permitiria inferir um Criador.

"Non sequitur", que, em bom português, significa: é pura bobagem, coisa de quem não entendeu (ou fingiu que não entendeu) o bê-á-bá do darwinismo. Embora mutações nos seres vivos de fato ocorram aleatoriamente, a seleção subseqüente --que conserva o que é útil e despreza o que não o é-- nada tem a ver com acaso. Ela é, se quisermos, o avesso do acaso. Trata-se, na verdade, de um dos poucos processos naturais que conseguem simular o trabalho de projetistas. Só que funciona ao contrário. Ao preservar traços mesmo que milimétricos de utilidade e descartar todas as mutações que não servem para nada (a maioria delas resulta em cânceres, é oportuno lembrar), a seleção consegue, ao longo de inúmeras gerações, produzir estruturas que passam por entidades concebidas por uma inteligência.

O que o criacionismo faz é, apoiando-se nessa ilusão, impingir raciocínios capengas que soarão convincentes a alunos com pouco treinamento epistemológico e já socialmente orientados a "aceitar a palavra de Deus". Admitir que padres e pastores profiram tais sandices em epistemológicas em seus templos é uma necessidade democrática. Mas não faz nenhum sentido repeti-las nas salas de aula de um Estado laico. Fatos sobre o mundo não são matéria que se decida com base em convicções pessoais ou maiorias.

E, infelizmente, os neocriacionistas não se contentam em acreditar em Deus. Querem, sabe-se lá por qual motivo, revestir seu delírio de vestes científicas. Só que estas não lhe cabem.

O grande erro da comunidade científica norte-americana foi ter esperado tempo demais antes de reagir às investidas criacionistas, deixando que o discurso pseudocientífico e aparentemente democrático prosperasse e ganhasse terreno. Infelizmente, nós, no Brasil, estamos repetindo esse equívoco. Vale lembrar que o pio casal Garotinho já introduziu o ensino do criacionismo nas escolas da rede pública do Rio de Janeiro. Consertar as coisas agora será um deus-nos-acuda.

Não deixa de ser irônico que os mesmos sociólogos, advogados e psicólogos que até há pouco se erigiam em defensores máximos das liberdades agora propugnem pela censura a pesquisas, e os mesmos religiosos criacionistas que poucos séculos atrás queimavam livros e pessoas agora recorram à liberdade de pensamento para apregoar tolices na escola pública. Não acredito em deuses, mas, é forçoso reconhecer que eles têm um senso de humor infernal.

Fonte: Folha de São Paulo.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Da série "Explicando com figuras"

Lição do dia: como funcionam as discussões entre psicólogos:
A sensação é mesma.

Editorial da Folha de São Paulo: RAZÃO E PRECONCEITO (sobre a pesquisa com os meninos da FASE)

Editorial da Folha de S.Paulo: RAZÃO E PRECONCEITO

Enviesada e precipitada: é o mínimo que se deve dizer da nota de repúdio de uma centena de psicólogos, advogados, antropólogos e educadores contra estudo biológico sobre comportamento violento de 50 jovens infratores no Rio Grande do Sul. O projeto nem foi submetido a um comitê de ética em pesquisa, mas os signatários já lhe atribuem "velhas práticas de exclusão e de extermínio" e "retrógradas práticas eugenistas".

O grupo da PUC-RS e da UFRGS planeja comparar jovens sob custódia do Estado que cometeram homicídios antes dos 18 anos com outros sem registro de violência. Entram na comparação histórico familiar e educacional, psicodiagnóstico, imagens do funcionamento do cérebro e variações genéticas, entre outros aspectos.
O protocolo da pesquisa prevê obtenção de consentimento dos jovens estudados, de familiares e até do Poder Judiciário. Nada garante que identifique correlações significativas. Excluí-las de antemão, contudo, só ocorre a quem nega a priori que eventos cerebrais sejam relevantes para explicar o comportamento. A um determinismo biológico opõem outro, o do ambiente social.

A censura é uma reação estereotipada à associação de biologia com comportamento. No século 19 e no início do 20, de fato, a suposição atabalhoada de uma relação causal entre características físicas (inclusive "raça") e capacidade mental, sem base real, produziu monstruosidades. Essa pseudociência foi demolida com argumentos teóricos e resultados empíricos, como convém. Não é o que se observa agora.

Nas "Regras para a Direção do Espírito", Descartes alertava já em 1628 que prevenção e precipitação são as grandes fontes do erro. Ao estigmatizar o estudo com noções preconcebidas, os autores da nota advogam proibição incompatível com a busca do conhecimento.

domingo, 30 de dezembro de 2007

O que é um Amolador?

Considerando que este blog é completamente novo, sem nada de muito interessante para mostrar, acredito que devo, como primeiro membro a postar algo aqui, falar a respeito do nome do nosso blog: por que "Amoladores de Facas"?

Para começo de conversa, nós amoladores somos muito diferentes uns dos outros, mas temos pelo menos três coisas em comum. A primeira coisa em comum é que todos nós estudamos Psicologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, de agora em diante chamada apenas de UFRGS, URGS ou A Grande Mãe Urguis.

A segunda coisa que temos em comum é nossa parca paciência com certas linhas teóricas que existem dentro da Psicologia. Não tanto contra suas idéias, mas contra suas atitudes dogmáticas, avessas à mudanças e, mais importante, anticientíficas. Não é uma ou outra linha específica, pois cada um de nós tem um asco pessoal (eu por exemplo, tenho minhas diferenças com a Psicanálise a nós ensinada). Poderíamos chamar este ponto em comum de "Espírito Crítico". Nem por isso somos menos contraditórios, pois, por mais que detestemos discussões epistemológicas vazias, as quais gosto de chamar de "punhetas intelectuais" por apenas jogarem fora células saudáveis no lixo, sempre acabamos caindo nelas, e até criando blogs para facilitar nossas punhetas intelectuais!

A terceira coisa em comum é nosso espírito de porco. Nas salas de aula, geralmente escolhemos as mesas do fundo (sim, Amoladores e Turma do Fundão são quase sinônimos), para que tenhamos um local seguro para largar nossas bombas durante as aulas, conversar sobre Pokemons ou simplesmente dormir. Também temos um gosto especial em perder tempo com coisas inúteis, como criar escalas psicométricas que medem o nível de chinelagem acadêmica, desenvolver teorias sobre comportamentos sexuais em filhos únicos e outras bobagens igualmente inúteis. Nesta mesma categoria, posso dizer que não somos muito afeitos ao "bom mocismo" e atitudes politicamente corretas.

E apesar de ter dito que temos pelo menos três coisas em comum, nós temos uma quarta coisa também: geralmente, gostamos e defendemos as Ciências do Comportamento, as Neurociências, Psiquiatria e até as Engenharias. Por que? Por que ninguém além de nós gosta destas disciplinas lá no Instituto de Psicologia da UFRGS. E por que elas são legais.

Bem, até agora, falei da nossa personalidade debochada e dos nossos gostos em comum, mas não falei nada sobre o nome do nosso "clubinho". Afinal, por que alguém em sã consciência seria um "Amolador de Facas"? Eu explico.

No primeiro semestre de 2007, primeiro semestre na faculdade para muitos de nós, tivemos a grata satisfação de ler para a disciplina de Psicologia Social I um texto de um senhor considerado muito importante por muita gente, mas obviamente não por mim, considerando que já esqueci seu nome e o título do referido texto. Aliás, esqueci quase tudo o que aquele prolixo senhor dizia nele (não gostamos de gente prolixa, a propósito). Só lembro de uma coisa: que ele detestava as pessoas que ele denominava de "amoladores de facas". Segundo ele, amoladores de faca são os que afiam as facas que a sociedade disciplinar opressiva (ou alguma coisa do gênero) crava na barriga dos fracos. Estes amoladores são Psicólogos Comportamentais, Neurociêntistas, Psiquiátras, engenheiros e pessoas omissas que não fazem nada para impedir os "maudosos", toda essa corja que gosta de ser metódica ao invés de ficar fazendo poesia pra salvar o mundo. Por que pra salvar o mundo tem que ir pro lado "subjetivo" e só. Nada contra a poesia, mas ela sozinha não é capaz de fazer muita coisa, apesar do que nossos amiguinhos (adoramos chamar todo mundo de "amiguinho", igualzinho ao palhaço Gozo) dizem. Acreditamos que só podemos obter algum progresso na Psicologia com métodos rigorosos e disciplinados, sendo críticos em relação a nossas práticas e a nós mesmos, e que qualquer um pode fazer isto (psicanalistas inclusive. Ou já esqueceram do amigo John Bowlby?).

Bem, acho que consegui pintar um retrato mais ou menos acurado de nós mesmos e do que gostamos. Não espero que você, leitor desprevinido, goste de nossas opiniões e que volte sempre. Aliás, é muito provável que após ler nossos textos, você deixe um comentário desaforado e nunca mais apareça, exceto quando estiver de muito mau humor e com desejos de nos xingar (o sistema deste blog não permite comentários anônimos, já vou avisando). Aprendi que "debates de alto nível" geralmente não são tão alto nível assim, e que as partes envolvidas quase sempre levam o assunto para o lado pessoal. Mas eu gosto de agir como um idiota, e espero (sentado) que pessoas inteligentes e capazes de diferenciar assuntos teóricos de assuntos pessoais leiam e comentem nossos textos, contribuindo para nosso crescimento intelectual.

E já estou esperando um comentário listando todos os mentalismos utilizados neste texto, por que fui condicionado para tanto.