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quinta-feira, 17 de julho de 2008

Darwin Awards 2008

Os Prêmios Darwin são honrarias oferecidas já há anos para aqueles que levam as idéias do grande Charles Darwin um passo adiante: seleção natural na espécie humana. São agraciados com o prêmio não aqueles que promovem limpeza étnica ou genética de seus semelhantes, mas sim os que se propõe a melhorar o pool genético da população ao removerem a si mesmos e seus conjuntos de genes - acidentalmente...

Este ano temos alguém especial para nós entre os vencedores: o padre dos balões! Não só ele optou por se remover do pool genético uma vez ao jurar celibato como o fez uma segunda vez ao empreender sua jornada derradeira rumo ao paraíso. Double Darwin, como o chamaram.

Nós que aqui ficamos, agradecemos a consideração.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Sociedade, Personalidade e Neurodiversidade

Para viver em sociedade é necessário ser bem ajustado de várias maneiras. A mais global destas maneiras é ter uma personalidade socialmente aceitável. Agrupamentos sociais selecionam pessoas com traços de personalidade mais bem vistos e vantajosos para o grupo. Não vejo nenhum problema nisto, até por que seria um contra-senso selecionar características que prejudicam a todos. Porém, isso acarreta alguns problemas. O primeiro é o processo de seleção. Em geral, seleciona-se as pessoas mais parecidas com a população em geral – em outras palavras, pessoas excêntricas, fora do centro comum, acabam excluídas socialmente. Por “centro comum” quero dizer qualquer coisa: brancos ou pretos, judeus ou arianos, introvertidos ou extrovertidos... ou qualquer outro parâmetro que se desejar. Hoje em dia isso não quer dizer grande coisa, já que dá para viver sozinho num apartamento comendo comida congelada e tele-entrega, mas há não muito tempo atrás, viver isolado de qualquer coletivo significava morte certa (e em algumas situações-limite ainda significa).

O processo de seleção não é, contudo, um sistema meramente binário, tendo mais possibilidades do que DENTRO DO GRUPO e FORA DO GRUPO. Na verdade, a exclusão social é o último recurso, pelo menos na civilização atual. Antes disso, ocorre uma tentativa de moldar a personalidade do excêntrico. Isso por si só não é ruim, e acredito ser possível justificar tal prática numa isolada tribo da Nova Guiné, mas suas conseqüências podem ser nefastas. Acho que não é necessário explicar com muita profundidade no que consiste esse processo, pois acredito que todos que lêem este blog já passaram por alguma situação em que sentiram-se pressionados a mudarem seu jeito de agir para serem socialmente aceitos: tirar boas notas, pegar mulher na festa, beber até cair, não urinar em sala de aula... qualquer coisa. Como já disse, essa mudança não é necessariamente ruim (sinceramente, eu não gostaria que mijassem na sala aqui de casa). Acho que o buraco é mais embaixo.

Historicamente, personalidades ditas ruins foram consideradas patológicas – a mais exemplar destas é a personalidade anti-social, mais conhecida como personalidade de psicopata. Não quero defender os crimes cometidos por psicopatas por aí, pois acho que qualquer ser humano que conscientemente (1) se torna um risco para outros e não sente remorso por isso, ou, se remorso for pedir demais, não ver vantagens em ser socialmente adaptado, ele deve ser mantido fora da sociedade. Deve ser tratado com dignidade e respeito, mas isolado para que não cause danos a ninguém. Entretanto, muitas pessoas são discriminadas por características comportamentais e personológicas que são mal-vistas por causa de crenças coletivas infundadas. Entre essas pessoas encontram-se psicóticos, Autistas (3), “portadores” (2) de Transtorno de Déficit de Atenção e/ou Hiperatividade (TDA/H), e outros cujos comportamentos estão definidos no DSM ou na seção 7 da CID (4).

Aqueles que se enquadram em uma ou mais destas definições não são perigosos por causa de seus transtornos. Admito que um psicótico em surto pode ser bem perigoso, especialmente se ele achar que é Azrael o Anjo da Morte e que a hora de todos os seus vizinhos chegou (5), mas não é durante o surto que o preconceito acontece (até porque não dá tempo de fazer isso enquanto se tenta impedir que Azrael te decapite a pauladas), mas depois, com as rubricas sociais: “te cuida com aquele ali, ó, ele já foi pro São Pedro (6) quatro vezes. É louco de pedra!”; “é doido, coitado. Segura tua bolsa, querida.”; “lugar de louco é no hospício!” O sujeito pode ser a criatura mais mansa do universo, mas a mancha está lá, e ele está condenado ao limbo da sociedade.

Com os autistas, a coisa é um pouco mais complicada. Em termos gerais, o distúrbio caracteriza-se por uma grande dificuldade de socialização, de empatizar com outras pessoas e tendência a ficar muito tempo em seu “mundo interior”. Há casos mais sérios, mas o núcleo comportamental comum a todos que se encaixam no espectro autista está aí (se estiver errado ou incompleto me corrijam). Isto não é necessariamente ruim, e não o é na maioria dos casos, mas como dificuldade de socialização é uma coisa socialmente mal-vista (DÃ!), e muitos pais de crianças autistas sentirem na pele como é duro seu filho não olhar em seus olhos, faz-se de tudo para desenvolver técnicas para que eles tornem-se mais capazes destas coisas e saiam de dentro de suas conchas. De novo, considerando as coisas positivas que socializar-se traz, não vejo nada errado com isso. Só que o processo é bem duro, e muitas vezes maltrata os autistas. Por exemplo, autistas que tomaram remédios para tornarem-se mais mansos relatam que sentiam-se mentalmente inertes. Em uma situação mais cruel, autistas têm os olhos muito sensíveis para luzes fluorescentes, e quando entram em recintos iluminados predominantemente por lâmpadas deste tipo começam a gritar, fazer escândalo, essas coisas que a gente não quer ver por aí, por que dói. Para que isto não aconteça (e para que os pais dos autistas sintam-se como pais normais), as crianças são condicionados via Análise Aplicada do Comportamento para não emitirem este comportamento. A dor nos olhos continua, mas pelo menos eles são bons meninos e boas meninas, e é isso que conta.

O problema dos “TDA/Hs” é diferente. Eles são perfeitamente capazes de socialização, mas tem maior dificuldade do que a média da população para concentrar-se em uma tarefa só e manter-se nela por um período considerável de tempo, e precisam estar em constante movimento, além de “viajarem” com muita facilidade (de forma similar aos autistas, TDA/Hs são bastante introspectivos). Trazendo para o plano concreto, é mais difícil para eles prestarem atenção em aulas (especialmente expositivas) e trabalharem, pois não conseguem prestar atenção direito e ficam “brincando” de alguma forma para manterem-se em movimento (por exemplo, malabarismos de uma mão só, com canetas, controles remotos e similares). Não é que não consigam – é só bem mais complicado. Sou um paciente com TDA/H típico, e sinto na pele estes problemas. Falando por experiência própria, quando preciso trabalhar, eu trabalho, e quando preciso estudar, eu estudo. A diferença entre eu e uma pessoa não-TDA/H é o tempo que eu levo para sair de um estado passivo de vadiagem para um estado ativo de estudo/trabalho. Em um panorama mais geral, são poucos portadores deste transtorno que não conseguem realmente trabalhar – se a preguiça é a mãe da necessidade, a necessidade é mãe do trabalho árduo. Adultos que dependem de seu salário sabem que, se vadiarem, vão para rua. Inclusive TDA/Hs. Quem mais sofre com este “problema” são as crianças em idade escolar. Não conseguir parar quieto em aula não só é um comportamento mal-visto, mas é encarado como desrespeito pelo professor e falta de interesse em aprender por parte do aluno. Não considero aulas expositivas o modelo de ensino ideal para ninguém, mas, como sinto na própria pele, é muito pior para quem têm déficit de atenção e/ou hiperatividade (7). Assuntos que em outro contexto seriam muito interessantes tornam-se francamente aversivos, como Física ou Química, e o aluno TDA/H sofre muito mais para estudar (esqueci de dizer que a tolerância à frustração para portadores deste distúrbio é menor do que a média da população). E daí, dá-lhe ritalina pro guri parar quieto e obedecer o professor!

Numa sociedade perfeita, a distância entre o socialmente aceitável e o existencialmente mais agradável seria a menor possível, permitindo que as pessoas convivessem em harmonia, mas não tolhessem seu crescimento pessoal e potencialidades para tanto. Não é assim onde nasci e me desenvolvo. Os remédios e técnicas utilizados para tornar estas pessoas mais socialmente aceitáveis funciona e trás benefícios claros – um surto psicótico causa danos irreparáveis no cérebro, e quanto mais puderem ser evitados, melhor, e não há via mais eficiente que o tratamento farmacológico (8). Posso dizer o mesmo para autistas e TDA/Hs, pois ambos se beneficiam de certos tratamentos. Entretanto, a personalidade destes, seu próprio modo de ser é mutilado, destruído até. E por que isso? Por causa de uma sociedade incapaz de acolher e aceitar as diferenças. Soa patético e piegas isso, eu sei. Mas é real. Não foram poucos os psicóticos, autistas e hiperativos que demonstraram aptidões artísticas e científicas excepcionais. O São Pedro está cheio de artistas; desconfia-se que Einstein era aspergher, e pode-se inferir com bastante certeza de que Jung era um TDA/H também (e eu, é claro).

Recentemente, um grupo de autistas e simpatizantes trocou idéias e uniu-se pela causa de garantir maior liberdade para os autistas poderem ser o que são – autistas. Como eles próprios afirmam, eles são cidadãos de pleno direito, mas com um funcionamento cerebral diferenciado. Chamam sua causa de Neurodiversidade. Acredito que o mesmo pode ser dito dos outros “transtornos” que citei aqui, e esta busca ampliada para incluí-los também. Por que não considerá-los formas de personalidade diferentes? O próprio Jung, segundo diz meu pai, identificara o TDA/H antes dos psiquiatras do DSM o classificarem. Mas ao contrário destes, Jung o definiu como sendo a personalidade intuitiva – cujo foco libidinal é mais voltado para o mundo interior. Bem diferente da doentificação psiquiátrica.

Não defendo deixar os autistas viverem como estão, deixar os psicóticos em surto correndo por aí ou os TDA/Hs eternamente perdidos em suas divagações – isto não seria saudável. Em sua obra, Jung fala do processo de Individuação. Este processo de crescimento se dá através do desenvolvimento das funções pouco desenvolvidas em nós: introvertidos tornam-se mais extrovertidos, pessoas racionais tornam-se mais emotivas; o contrário também acontece (9). Acredito que, em uma sociedade ideal, nossas diferenças seriam respeitadas, mas nos seria permitido desenvolver aquilo que precisamos para nos tornarmos indivíduos únicos e saudáveis, e acredito que, se desejamos que tal sonho torne-se realidade, devemos primeiro criar uma sociedade mais neurotolerante.





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1. A questão da consciência em psicopatas me soa complicada demais para poder dizer se eles possuem consciência ou não de seus atos, mas considerando que muitas pessoas com transtorno de personalidade anti-social são muito inteligentes e capazes de elaborar detalhadamente planos para longo prazo, vou assumir que eles têm consciência de que o que fazem é errado.

2. Palavra ruim, eu sei, mas não consigo pensar em nenhuma melhor.

3. Por motivos práticos, considero autista todos os portadores de condições que se encaixam no espectro autista, como a síndrome de Asperger.

4. DSM = Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, atualmente na quarta edição revisada; CID = Classificação Internacional de Doenças, atualmente na décima edição. A seção 7 da CID é de transtornos mentais (se não me engano).

5. Nesse caso, internação em uma ala psiquiátrica de hospital geral com vigilância faz MUITO sentido. No momento aqui no Brasil, e mais especificamente em Porto Alegre, os psicóticos surtados são internados em hospitais psiquiátricos, mas por motivos que não quero comentar aqui, não é a situação ideal. O Marcelo já falou sobre isso aqui e aqui.

6. Hospital Psiquiátrico São Pedro, também conhecido como “O Glorioso”. Pelo menos é assim que o diretor daquela joça chama o lugar.

7. Nunca conversa informal esses dias, o Lobo da Estepe (outro TDA/H óbvio e assumido) disse que a escola ideal para um TDA/H seria um parque de diversões com livros em locais específicos e bem chamativos, para que as crianças pudessem movimentar-se e ler à vontade quando achassem melhor. Os professores ficariam por perto para tirar dúvidas e cuidar para que os moleques não se esfolem além da conta (por que infância sem joelho ralado não existe). Talvez isso não funcionasse em uma escola primária, mas eu certamente adoraria se a Psicologia da UFRGS funcionasse dessa maneira.

8. Claro que, para alguns, o melhor remédio é um “bom ambiente”.

9. Na tipologia jungiana, há quatro funções psíquicas diferentes, além dos pólos extroversão-introversão da direção da libido: sensação, pensamento, intuição e emoção. Simplificando bastante, intuição é a função oposta de sensação, e pensamento a oposta de emoção. Cada pessoa tem uma dessas como função primária, a mais importante e desenvolvida, outra como função secundária, auxiliar à primária e tão desenvolvida quanto, a terciária e a quaternária, que são muito pouco desenvolvidas se comparadas com as duas primeiras. No processo de individuação, busca-se harmonizar estas funções e torná-las igualmente desenvolvidas. Se dispostas em um círculo, as quatro funções ficariam cada uma em um ponto cardeal, sendo seu centro o Self (arquétipo do desenvolvimento humano máximo e ideal a perseguir). Para uma melhor explicação, clique aqui (em inglês).

terça-feira, 13 de maio de 2008

Senso de Justiça em Primatas

Seguindo a série de descobertas científicas de capacidades “humanas” em animais “inferiores”, venho aqui neste blog falar de uma pesquisa conduzida pelo primatologista Frans de Waal (não, não é o cara dos átomos).

A grande descoberta é que macacos preferem uvas a pepinos. OK, admito que dito desta maneira parece imbecil, mas é só explicar a metodologia do estudo para ver que há mais por trás desta afirmação.

No estudo, dois macacos recebiam um pedaço de pepino ou uma uva como reforçador de uma tarefa simples. Se os dois recebessem pepinos ou uvas, seria como qualquer outro estudo comportamental com animais, eles seriam reforçados e continuariam a realizar a tarefa. Entretanto, quando um macaco recebia uma uva, enquanto o outro recebia um pepino, o que recebia o pepino se rebelava, parava de realizar a tarefa ou se recusava a comer seu prêmio. Este comportamento dito irracional é chamado de “aversão à iniqüidade”, e é considerado uma virtude entre seres humanos. Alimentos que contém mais açúcares, como uvas, são mais valorizados que outros com menores quantidades, como pepinos. Os macacos que recebiam pepinos consideravam-se injustiçados, e recusavam-se a realizar as tarefas até que a divisão de recompensas melhorasse.

Talvez estejamos antropomorfizando os pobres coitados, mas acho que vale lembrar que macacos também elaboram Teorias da Mente (em outras palavras, são capazes de interpretar e tentar prever o comportamento de semelhantes), e que eles são mais inteligentes do que o senso comum supõe. Assim sendo, é bonito ver que não somos apenas nós que desenvolvemos um senso de justiça no reino animal, e que pelo menos algumas espécies de macacos também o fizeram.

Frans de Waal faz um alerta: “Se os macacos já têm problemas em aceitar a desigualdade de renda, pode-se imaginar o que ela faz conosco; cria grandes tensões dentro de uma sociedade, e sabemos que tensões afetam o bem estar psicológico e físico.”

Talvez não nos voltemos para os procariontes, mas para os primatas com certeza.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Rats Capable Of Reflecting On Mental Processes

e as fronteiras vão caindo... Como diria Jorjão, olharemos para qual lado, o dos Deuses ou dos Procariontes?

Rats Capable Of Reflecting On Mental Processes

ScienceDaily (Mar. 9, 2007)
Let's say a college student enters a classroom to take a test. She probably already has an idea how she will do on the test, before she even takes out a pencil. But do animals possess the
same ability to think about what they know or don't know?

A new study by researchers from the University of Georgia, just published in the journal Current Biology, shows that laboratory rats do. It's the first demonstration that any non-primate knows when it doesn't know something, and it could open the way to more in-depth studies about how animals--and humans--think.

"This kind of research may change how we think about cognition and memory in animals," said Jonathon Crystal, an associate professor of psychology in UGA's Franklin College of Arts and Sciences. Crystal's co-author on the paper is Allison Foote, a graduate student in the department of psychology at UGA.

Researchers have believed for some time that people and non-human primates are capable of metacognition"--reasoning or thinking about one's own thinking. There have been studies on birds about this kind of thinking process, but results thus far have been inconclusive. The new study is the first that shows a non-primate species has metacognition--a proposal that may well be controversial.

The study involved what is called a "duration-discrimination" test--offering rats rewards for classifying a signal as either short or long. As in most such tests, the "right" answer led to a large food reward, while a "wrong" answer led to no reward at all. The twist, however, is that before taking the duration test, the rats were given the chance to decline the test completely. If they made that choice, they got a small reward anyway.

"If rats have knowledge about whether they know or don't know the answer to the test, we would expect them to decline most frequently on difficult tests," said Crystal. "They would also show the lowest accuracy on difficult
tests that they can't decline. Our data showed both to be true, suggesting the rats have knowledge of their own cognitive states."

It's easy to find out when humans believe they know or don't know the answer to a task or test. You just ask them. With non-verbal animals, it is necessary to used experimental conditions in which a subject can demonstrate
knowledge of a cognitive state through its behavior.

The tests asked the rats to discriminate among a number of responses. Sometimes, the choices were relatively easy, and the rats were able to make a choice that generated a large reward. But often, the choices were quite
difficult, and the animals faced a dilemma: Should they continue and take a
chance on the test with the risk of no food reward, or should they just bai=
l
out and take the small, but guaranteed reward?

One part of the problem, for example, was presenting the rats with a sound and asking them to determine if it was "short" or "long." When the sounds were near the extremes of either end, discriminating was easy. But for sounds with durations in the mid-range, the rats found it extremely hard to know if they were "short" or "long." So what should they do: Guess and possibly be wrong, or simply refuse to take the test and get a small reward?

"Our research showed that the rats know when they don't know the answer to a question," said Crystal.

The results of the just-published study present a dilemma for those who had previously believed that only primates could achieve metacognition. But it also presents a rodent model that should allow researchers to understand better what animals are "cognitively sophisticated" and why. The research will also open new lines of inquiry about the underlying neural mechanisms of this ability. Reflecting on one's own mental experiences is a defining feature of human existence, and the demonstration of metacognition in rats suggests that this type of cognition may be widespread among animals. Does it mean, for example, that rats are "conscious," and could that also be true of other non-primates?

The research was supported by a grant from the National Institute of Mental Health.

domingo, 30 de março de 2008

Reforma Psiquiátrica e Política 2 - Um Diálogo

[Discussão feita a partir do texto previamente publicado "A Reforma Psiquiátrica - Verdades, Mitos e Política".]


Marcelo Duarte diz:

Mas então, o que tu fez nesse texto foi questionar os argumentos favoráveis à reforma, ou pelo menos favoráveis à reforma tal como ela aí está.

Andarilho diz:

Questionamento que nunca é feito por quem é favorável à reforma psiquiátrica

Marcelo Duarte diz:

Tu não chegou a apontar o dedo para coisas mais específicas, até porque tu não conhece o CAPS por experiência e nem o sistema psiquiátrico muito bem. Mas sim, o questionamento é válido. Este ano minha geração de Amoladores foi toda para a rua. Todos os malucos foram fazer AT, que é um xodó da reforma psiquiátrica.

Andarilho diz:

Foram para a rua no sentido de irem para o "mundo real"?

Marcelo Duarte diz:

Exato. O Bruno inclusive está no São Pedro. E me falou que vai passar essa semana inteira estudando sobre crack. Porque deu merda com um dos moradores lá do Morada e ninguém sabe muito sobre crack. Então ele tem o nobre dever de estudar sobre algo que realmente será convertido em ajuda real para alguém.

Andarilho diz:

Algo incomum em Psicologia

Marcelo Duarte diz:

Certamente. Mas então, eu entendo que tu esteja irritado com as argumentações supérfluas e enviesadas dos nossos caríssimos amigos psicólogos. However, antes de mais nada, me diga tu tem algum argumento interessante para fazer diretamente contra o CAPS e seu contexto? Não precisa ser nada de mais, só quero entender de onde vem o teu raciocínio.

Andarilho diz:

Na verdade, não tenho nenhum argumento contra o CAPS, até por que só sei o básico do básico a respeito dele. Meu raciocínio vem daquela discussão sobre "política tudo é". Será que o serviço do sistema substitutivo não melhoraria se a política fosse deixada um pouco de lado? Tá, tem o SIMERS e o CREMERS em cima da Câmara dos Deputados sempre tentando reverter a reforma, o que obriga os mentaleiros a formar uma tropa de choque contra esses ataques. Mas nessa lenga-lenga toda, não jogaram o bebê junto com a água do banho, e se esqueceram que a missão deles não é instituir la revolución psiquiátrica, mas atender bem aqueles que procuram ajuda?

Marcelo Duarte diz:

Pois é. Vocês não têm psicologia escolar ainda, não é?

Andarilho diz:

Acho que Processos Institucionais "engoliu" Escolar e Trabalho. Mas não tenho muita certeza. Vamos dizer que não tivemos Escolar ainda.

Marcelo Duarte diz:

Ah. Bom, com sorte vocês ainda verão, então, que muita coisa de TODOS os sistemas seria melhorada se deixássemos a política de lado. A rede de educação municipal é uma folha ao vento das políticas governamentais rotativas. É uma loucura. E deixar isso de lado é muito tentador. A tecnocracia sempre esteve presente nas utopias dos romancistas. Só que isso é meio difícil de fazer, pra não dizer impossível. O problema dessas coisas é que não existe uma resposta certa. Não existe um método "bom". Então tu tem que escolher e aí entra a política. Sempre que tiver escolha, vai ter política. Não vai ter política quando tu puder impor as coisas. E mesmo assim tem política pra fazer os outros aderirem. Ainda mais nessas coisas intimamente governamentais, como educação e saúde.

Agora, quanto à reforma em si, eu já fui no CAIS mental centro, que é um CAPS. Algumas coisas que se fazem lá são bem criticáveis. E eu não duvido nada que os mentalmente transtornados morrendo na rua lá não sejam por culpa dos CAPS, em algum grau. E que isso seja ruim. Mas no geralzão da coisa eu ainda penso por um outro ângulo: o mérito do CAPS por enquanto é que alguns que se salvam vão viver uma vida decente. Ou no mínimo razoável, digna de alguma forma. Tem gente que morre na rua, tem gente que morre nos hospitais. Perdas haverá igual. Mas no hospital fica todo mundo chapado andando em círculos. - Ou não! - Eu também não tenho certeza se é assim. Mas é assim que se costuma retratar. E no CAIS eles jogam futebol com o Luciano. Tsc tsc.

Andarilho diz:

Eu ia fazer um comentário sobre pessoas chapadas andando em círculos no Instituto de Psicologia...

Marcelo Duarte diz:

HEASHEHASHESA

Jogar futebol com o Luciano pode não ser taaaão melhor. Mas é um pouco melhor.

Andarilho diz:

O que eu questiono é esse enfoque exclusivo sobre a política. "Já que não existe uma atitude certa, todas estão erradas, e portanto a minha é melhor porque é minha".

Marcelo Duarte diz:

É, isso é obviamente uma porcaria. Política exclusiva não ajuda muito. Eu to ligado no que tu tá querendo dizer. Tem gente que tá esquecendo a saúde pra defender uma bandeira. À lá MST ou algo assim. Vira uma massa de manobra.

Andarilho diz:

Às vezes eu acho que nós somos essa massa de manobra.

Marcelo Duarte diz:

"Vamos defender os CAPS porque os psiquiatras são maus e ponto" Claro que não dá pra ser assim. E eu te apóio na tua crítica. É muito fácil tu ficar emburrado com a classe médica e deixar a crítica morrer aí. Até porque, eu sou obrigado a te dizer que os médicos são foda MESMO. Eles fazem por merecer as críticas que recebem. Mas mesmo assim, não dá pra fechar os olhos e sair chutando. Right?

Andarilho diz:

Right-o.

sábado, 29 de março de 2008

A Reforma Psiquiátrica - Verdades, Mitos e Política

Estava pensando um dia desses sobre o que vejo na faculdade, e o tema da Reforma Psiquiátrica e do Movimento Antimanicomial vieram-me instantaneamente à mente. Tive aulas de Psicologia Social e Políticas Públicas com Simone Paulon, uma das principais pesquisadoras da área, compareci à terceira edição do Mental Tchê em São Lourenço do Sul e muito ouvi meus veteranos falarem a respeito.

Basicamente, os princípios que norteiam a luta antimanicomial são os da humanização dos serviços de saúde mental, e por uma maior descentralização do poder dentro destes serviços, agora concentrados nas mãos dos psiquiatras. O ideal da reforma psiquiátrica é, em outras palavras, garantir que seus usuários sejam tratados como os seres humanos que são, e não como os internos de hospícios tem sido historicamente tratados, como animais. Neste ponto, acho que todos, desde psiquiatras até psicólogos concordariam.

Mas não consigo parar de me questionar se a reforma psiquiátrica até agora empreendida conseguiu fazer o que se propôs. Ela está dando certo?

Com certa freqüência, vejo notícias de jornais falando sobre como usuários de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que deveriam de certa forma “substituir” os hospitais psiquiátricos, são mau atendidos, não recebem seus remédios, que vivem um constante “entra-e-sai” do CAPS. Estes jornais frequentemente defendem que isto não pode continuar desta maneira, e que a única solução seria restabelecer os manicômios. Vários colegas de curso, ao se depararem com tais reportagens, saem bradando que a mídia é “reacionária” e que foi “comprada” pelos psiquiatras. Poderia pensar assim também, e não ter que agoniar-me com as dúvidas que agora me afligem, e ser aceito como mais um feliz estudante de Psicologia com pensamento crítico, mas prefiro ser levemente reacionário e ignorante, e questionar se o que estes jornais afirmam (o mau atendimento de usuários de CAPS) é verdadeiro ou não. E, usando um pouco do abominado senso comum, não vejo o que a mídia teria a ganhar fabricando notícias sobre o sistema substitutivo. Nenhum jabá corporativo valeria a sua credibilidade se este sistema funcionasse perfeitamente.

Admito minha ignorância a respeito deste assunto, pois não conheço nenhum CAPS por dentro, e as poucas coisas que conheci a respeito da reforma psiquiátrica me foram apresentadas por seus defensores, o que torna seu testemunho um tanto quanto suspeito. Sempre que ouvimos um psiquiatra criticar a reforma psiquiátrica, dizemos que ele é “enviesado” e tem “motivações políticas”, pois seu poder com esta reforma esta se esvaindo. Mas por que não dizemos o mesmo quando um psicólogo defende a reforma, pois ele está ganhando poder com ela?

É uma questão complicada. Ouço dizer bastante que por trás de toda teoria técnica há um discurso político. Que os psiquiatras defendem os hospitais psiquiátricos por que nestes eles detêm poder absoluto. Mas isto torna a eficácia das técnicas psiquiátricas nulas, meros epifenômenos do sistema político da saúde mental? Sei que, historicamente, pacientes psiquiátricos foram simplesmente empilhados em prédios sujos e escuros e lá esquecidos, mas será que foi (e é) assim mesmo? Mais uma vez, admito minha ignorância, pois nunca conheci um hospital psiquiátrico de verdade. Fui no São Pedro uma vez, mas acho que não posso tomá-lo como modelo, já que, por ter sido o primeiro do estado, ele é um símbolo da força dos psiquiatras, e portanto é um alvo preferencial dos ataques reformistas. Acho que a Clínica Paulo Guedes de Caxias do Sul seria um melhor exemplo, por ser um tanto quanto ignorada no plano político estadual (nunca me falaram nada a respeito dela. É só São Pedro na cabeça).

Recebi um e-mail uma vez, através da lista do COREP, falando sobre uma dessas reportagens “reacionárias” que saiu n’O Globo do Rio de Janeiro, sobre pacientes psiquiátricos morrendo na rua. Não lembro direito dos detalhes, mas lembro que o autor da mensagem conclamava a todos nós a repudiar a tal da reportagem, e a trabalhar rapidamente para “conter os danos causados” por ela. Por “contenção de danos” neste contexto, imagino que fosse convencer a opinião pública de que a reportagem não refletia a realidade. Não sei se reflete, e confio que meus colegas mais experientes esclareçam este tópico. Mas fico pensando... por que a mensagem deste e-mail era sobre “conter os danos causados” pela reportagem, e não “impedir que mais mortes aconteçam” por causa das falhas do sistema substitutivo? Os argumentos de que não há dados estatísticos sobre as mortes dentro de hospitais psiquiátricos, e que se mantivermos o apoio da opinião pública, a reforma poderá continuar, e a condição geral dos usuários do sistema de saúde mental melhorará foram os primeiros que eu usaria em defesa da contenção de danos e de uma publicidade eficiente. Mas um mestre de Karatê me perguntou durante um treino: o que é melhor: ser eficiente ou parecer eficiente? É uma posição filosófica bem diversa da máxima maquiavélica de que parecer é mais importante do que ser. Além disso, devo admitir que Artes Marciais e Políticas Públicas são domínios bem diversos, e que muitas coisas que se aplicam à uma, não se aplicam á outra. Mas será que parecer é mais importante do que ser?

Dizem que a melhor forma de propaganda é o boca-a-boca: alguém usa seu serviço, gosta, e recomenda para os amigos e conhecidos. Desta maneira, se você for bom no que faz, logo terá uma clientela cativa. Não sei se há estudos confirmando este fenômeno, mas casos anedotais a respeito disto existem por toda parte. Seria demais supor que a melhor publicidade para a reforma psiquiátrica é seu funcionamento eficaz? Cansei de ouvir que “político, tudo é”, para citar ainda outro e-mail que recebi sobre estas pendengas. A parte técnica, prática e funcional não quer dizer absolutamente nada? É só um mal necessário, como o extintor de incêndio obrigatório em todos veículos automotores (que diga-se de passagem, não serve para muita coisa)? Utilizando-me desta lógica, é possível defender a substituição da Psicologia e da Psiquiatria no tratamento de transtornos mentais, e colocar Terapia de Florais em seus lugares. Afinal, não é tudo política? Se eu for um terapeuta floral muito eficiente no campo da política, eu posso passar por cima de todas as pesquisas empíricas irrelevantes e fazer do meu discurso mais importante que todos os outros. Certo?

O que quero questionar não são os objetivos da Luta Antimanicomial, muito nobres, mas seus meios, que, pelo que me parecem, não são lá grande coisa. Claro, os seus defensores conseguiram transformar a reforma psiquiátrica em lei, e isso demonstra grande habilidade e força, especialmente quando se pensa que o adversário principal da reforma seja o cartel médico. Impedir que as freqüentes ondas de ataque vindas do “outro lado” derrubem a lei é outra prova de poder. Mas e os pacientes psiquiátricos, como ficam? Não tenho a menor dúvida de que há milhares de psicólogos, enfermeiros, psiquiatras, terapeutas ocupacionais e outros tantos profissionais que trabalham com saúde mental preocupados com as condições daqueles que procuram sua ajuda. Mas as reportagens que vira e mexe aparecem, falando sobre pacientes de CAPS morrendo feito moscas, por mais questionáveis que possam ser, trazem à tona algo que pode ser verdadeiro: o sistema substitutivo não está dando conta do recado. Isto é verdadeiro realmente? Não sei. De novo devo admitir minha ignorância sobre este assunto, já que não conheço o “front”, e passo (por enquanto) todo meu tempo atrás de livros e polígrafos xerocados. Mas se simplesmente refutarmos estas afirmações como sendo “descabidas”, ou mesmo “reacionárias” e “mentirosas”, sem discutir criticamente o que acontece, vamos tirar os psiquiatras de seus locais de poder, e colocar os psicólogos em outro.E chamar quem é contra isso de desalmado ou coisa pior.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Para além da Política e Opinião

Em um processo científico, a crítica é fundamental. Primeiramente, por que ela permite que o pesquisador seja privilegiado com informações advindas de outros campos, e desse modo, pode enriquecer seu delineamento experimental. Segundo, por que alguns erros óbvios não são tão óbvios quando olhamos muito perto, e alguém mais distanciado pode apontá-los. Portanto, é sempre salutar quando um cientista promove debates sobre pesquisas alheias, pois isto potencializa o progresso. Mas entrar na justiça para proibir uma pesquisa, com a desculpa de “discutir com a sociedade” não é só desonesto, é covarde e mesquinho.

Esse é um assunto antigo, tanto aqui, quanto no Amoladores de Facas. Já cansei de falar a respeito das posições adotadas por muitos dos críticos da pesquisa que será (ou não) realizada por neurocientistas da UFRGS e da PUCRS com meninos internos da FASE, utilizando-se de técnicas como Pet Scan, Eletroencefalograma e Ressonância Magnética. Mas através das discussões de que participei sobre ela, pude notar várias incongruências no discurso destes “campeões dos direitos humanos”.

Michel Foucault, importante filósofo e sociólogo francês, através de suas pesquisas, concluiu que, por trás do discurso psiquiátrico de várias épocas havia um discurso político, que era mais significativo do que o discurso técnico. Por exemplo, era comum que mendigos, bêbados e outros moradores de rua incômodos fossem internados em hospícios, para que não incomodassem a “boa sociedade” com sua visão asquerosa. Por chocante que possa parecer, isto ocorre até hoje. Basta apenas visitar um hospital como o “glorioso” São Pedro, ou o Instituto Psiquiátrico Forense. Foucault apontou algo incômodo, porém verdadeiro, uma verdadeira mancha em nossa sociedade. Mas, como bom guru que se tornou (duvido que por desejo próprio), teve seus ensinamentos devidamente postos no Altar da Certeza.

Numa das primeiras discussões em que me envolvi sobre essa pesquisa, reclamei que os críticos estavam focando-se exclusivamente na política, deixando de lado as questões técnicas. Recebi como resposta “político, sempre é”. Tirei do contexto, o que pode ter desvirtuado seu sentido original, que dizia que posicionar-se contra ou a favor de uma pesquisa é um posicionamento político, mas representa bem o que quero demonstrar. No agora famoso debate da TVCOM sobre este mesmo assunto, Martha Narvaz começou sua parte dizendo exatamente isto aqui:

A gente sabe que existem diferenças de discurso teórico, que são os discursos da biologia, discursos da genética, discursos da psicologia, e dentro da psicologia, tem a psicologia experimental, que pensa diferente de outras linhas teóricas. E a gente sabe que todos esses discursos vão disputar no meio acadêmico a sua condição de verdade.”
(grifo meu)

Este debate deveria ser exibido para todos os calouros de Ciências Humanas da UFRGS, com o título “Como não fazer ao se posicionar em um debate”. Ela é tão ruim debatedora que foi uma dor ter que voltar o vídeo várias vezes para pegar a parte que eu queria. Destaquei a última frase da citação, que considero paradigmática. Em outras palavras, ela diz “nossos discursos valem a mesma coisa, não importa qual seja mais útil, ou empiricamente validada. O que conta é opinião”. Ao longo de todo o debate, diversas vezes ela diz coisas do tipo “é uma opinião minha, pessoal, mas essa pesquisa é eugenista!” Não acredita? Vai lá e olha todos os quatro vídeos. Não sou masoquista pra ficar olhando tudo de novo. Mas enfim, o que ela faz é colocar coisas bem diversas, desde Terapia Cognitivo-Comportamental até Terapia de Florais no mesmo balaio, joga fora todos os experimentos que atestam a eficiência da primeira e colocam em dúvida a da segunda, e diz que o que importa é o discurso político. Quem tiver mais muque é quem está certo (um discurso legitimamente nazista). Peguei pesado, admito, primeiramente por que ela não falou de TCC e de Florais, e muito menos defenderia esta última, mas com este exemplo, pretendo demonstrar o sofisma que ela utilizou como argumento. Se eu quisesse defender que a Terapia de Florais é superior à Terapia Cognitivo-Comportamental, eu utilizaria argumentos muito semelhantes aos da doutoranda Martha.

Desprezar a parte técnica da ciência, e focar-se apenas nos aspectos políticos que envolvem a teoria é perigoso. A História, para quem a Martha apelou quando falou no mr. Hitler, dá um bom exemplo do que aconteceu quando a técnica foi ignorada: Trofim Lysenko. Para quem não conhece esta figura e não está com paciência para ler o artigo da Wikipédia, Lysenko foi um geneticista soviético que decidiu ignorar as descobertas de Gregor Mendel no campo da genética, tirou uma teoria própria do ar, convenceu Stalin que não existia coisa melhor no mundo, expurgou seus rivais teóricos do país,e aplicou suas teorias nas plantações de trigo da União Soviética. O que aconteceu em seguida foi uma queda espantosa na produtividade, falta de alimentos e fome generalizada. O lado que ficou com o velho Mendel conheceu destino mui diferente, a Revolução Verde, o maior salto em produtividade de colheitas. Imaginem se, lá nos idos de 1940, geneticistas ocidentais influenciados por Lysenko começassem a falar que tudo é discurso, e convencessem os presidentes de seus respectivos países a proibirem pesquisas em genética mendeliana, só na lábia?

Em um campo como as Ciências da Saúde, isto é tão ou mais perigoso. As Neurociências tem se mostrado extremamente promissoras nos últimos dez anos, trazendo benefícios concretos para a humanidade, e não para o conceito abstrato de “progresso científico”. Elas têm beneficiado pessoas. Se existe um discurso político por trás das neurociências, da Terapia Cognitivo-Comportamental? Certamente. Estes discursos políticos influenciam os rumos da pesquisa? Qualquer um que trabalha com pesquisa sabe que sim. É o discurso político o fator mais importante por trás da ciência? Não. O fator mais importante é o bem-estar de todos os seres humanos, estejam eles envolvidos ou não no processo científico.

Peguei apenas um extremo da discussão e ampliei-o para tornar meus argumentos mais claros por contraste, mas nem de longe as posições aqui criticadas representam a opinião da maioria. Muitos de meus colegas são contrários a esta pesquisa, por temerem que os meninos envolvidos fossem tratados como absorventes (ignorados depois da pesquisa), que os procedimentos envolvidos acarretassem mal físico ou psicológico, ou que as vias políticas pelas quais os pesquisadores caminharam para ter acesso à FASE fossem duvidosas. Mas nunca endossaram seu boicote. O palestrante do último seminário em pesquisa em psicologia levantou justamente o problema do discurso positivista por trás desta pesquisa, mas rechaçou a idéia de apelar para a Justiça proibir sua realização. Questionou a teoria e os métodos. Baseou-se em opinião e política, mas foi muito além delas. Foi um verdadeiro cientista.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Divindades

Quando a Psicologia e a Sociologia degeneram em ciências totalitárias, manifestam-se estranhos fenômenos entre seus adeptos. O desejo de poder domina o desejo de verdade. O conhecimento que se tem do homem passa a ser mais importante que o próprio homem. Adota-se por vezes, atitude de singular superioridade, como a de quem possuísse conhecimento absoluto, capaz de tudo penetrar e de tudo esclarecer. Dessas alturas, olha-se para as misérias humanas. Toma-se a posição de Ser Superior, que domina espiritualmente o mundo - o que se torna de um ridículo todo particular, quando se é pessoalmente um pigmeu.

-Karl Jaspers

A primeira coisa que lembrei-me ao ler este parágrafo do livro "Introdução ao Pensamento Filosófico" de Jaspers foi da atitude de certos representantes do CRP-RS e de certa doutoranda da UFRGS, que provavelmente diriam que não concordam com a obra deste filósofo, o que a invalida automaticamente.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

A Pesquisa Maldita - A Série

Pesquisadores de duas grandes universidades de Porto Alegre propuseram uma pesquisa com meninos infratores internos na Fundação de Atendimento Sócio-Educativo do Rio Grande do Sul (FASE-RS), sobre comportamento violento e neurologia. Seria uma pesquisa como outra qualquer, se não fosse a grata infelicidade de um dos participantes do projeto ser secretário estadual de saúde, e de terem dado uma entrevista para um jornal. Se não fosse por essa conjuntura, provavelmente só ficariamos sabendo desta pesquisa quando o artigo final fosse publicado.

Como provavelmente vocês já sabem do que eu estou falando serei breve: a pesquisa, nem ao menos iniciada, foi alvo de muitas críticas, vindas de psicólogos sociais, antropólogos, educadores e outros profissionais, que a acusaram de dar novo rosto para práticas antigas de extermínio e eugenia.

Coletei na internet todo tipo de texto, favorável, contrário e neutro à pesquisa, vídeos e documentos para fazer uma cronologia dessa farra toda. Poderia ter apenas feito uma síntese dos argumentos mais usados e/ou fortes de cada lado da discussão, mas imaginei que os leitores deste blog prefeririam ir até a fonte das informações, então, coloquei aqui todos os textos que encontrei na íntegra, e com o link para o site onde encontrei.

Aproveitem o catatau de textos sobre o assunto.

A Pesquisa Maldita - A Opinião de David Coimbra

Pesquisa e Preconceito
01/02/2008

Já estive em vários presídios. Porém como visitante. Repórteres de polícia volta e meia têm de ir a presídios, e muito já militei em editorias de polícia, e muito apreço tenho por histórias policiais.

No de Criciúma havia uma saleta pouco maior do que um banheiro de empregada que o administrador do presídio chamava, o orgulho içando-lhe o queixo, de biblioteca. De fato, no lugar empilhavam-se revistas e livros, e mais: faziam retumbante sucesso. Os presos os requisitavam duas ou três vezes ao dia! Fiquei encantado com o interesse dos detentos pela literatura. Seriam os criminosos do sul catarinense os mais intelectualizados do Brasil? Depois de breve diligência, descobri que não. Ocorria que o fornecimento de papel higiênico aos presos era escasso, e eles equacionavam o problema arrancando as páginas centrais dos livros a fim de empregá-las na limpeza pessoal, objetivo menos nobre do que a leitura, mas mais premente.

Conheci presídios gaúchos, também. E não poucas vezes fui a unidades da Fase para dar palestras aos internos. Nesses casos, o que mais chamou minha atenção foram os depoimentos dos meninos infratores sobre suas relações pessoais. Quase 100% deles possuem um só vínculo emocional, um único liame que os mantém em contato afetivo com outros seres humanos: a mãe. É pela mãe que eles querem mudar de vida, salvar-se, sair da Fase e integrar-se à comunidade.

Despedia-me desses locais, dos presídios, das unidades da Fase, pensando que pouco se sabe dessa gente e no quanto seria útil saber mais. A sociedade, informada das necessidades básicas dos presidiários, como essa tão básica de papel higiênico, talvez se movimentasse para supri-las. E as mães dos meninos da Fase, será que elas não poderiam ser utilizadas com mais inteligência na regeneração dos próprios filhos?

Falta-nos pesquisa, foi o que sempre pensei. Falta-nos informação.Agora, cientistas gaúchos anunciaram a realização de uma pesquisa a respeito da violência justamente dentro das unidades da Fase. O que parece bastante lógico - lá estão adolescentes infratores, afinal. Seria proveitoso identificar suas motivações, traçar seu perfil, saber do que precisam, o que os fez se apartar da sociedade. Conhecê-los, enfim. Para ajudá-los.No entanto, um grupo politicamente correto tenta impedir a pesquisa, tachando-a de "prática de extermínio e exclusão".O que concluir desses protestos? Que os cientistas interessados na pesquisa são asseclas do Doutor Mengele, nazistas sanguinários preparando o próximo Reich? Ou que os protestantes são obscurantistas, herdeiros do Santo Ofício, inimigos do Saber? Nem uma coisa, nem outra. Os primeiros são profissionais das mais bem conceituadas universidades do Estado, cientistas sérios, eivados de boas intenções. Os segundos são professores, advogados, psicólogos, gente de alguma ilustração, enfim.

Onde está o problema, então? Na vaidade. Tudo é vaidade debaixo do sol, ensina o Eclesiastes. Só que, na Academia, a vaidade é mais corrosiva do que qualquer modalidade com a qual se poderia esbarrar há 29 séculos, quando o Eclesiastes foi escrito. O grupo que se manifesta contra a pesquisa sabe que ela não é nociva. Mais: sabe que a pesquisa só pode acrescentar conhecimento, e o conhecimento não ceva o preconceito; ao contrário, o enfraquece. Trata-se de mera discussão acadêmica. Pequenas tolices de grupos rivais. Vaidade intelectual, acredite, perplexo leitor. Mas acredite, também, nas palavras daquele antigo escritor, Celine, que dizia em francês, e assim fica muito mais bonito: "Não existe vaidade inteligente".

Fonte: FASE, Zero Hora.

A Pesquisa Maldita - Helio Schwartsman Strikes Again

Ciência sob ataque
31/01/2008

Se eu fosse exagerado, diria que a ciência brasileira está sob ataque. Como não sou, parece mais adequado afirmar que ela vem enfrentando percalços imprevistos. Há duas semanas a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, participou de um evento criacionista e, em seguida, defendeu o ensino de teorias "alternativas" ao darwinismo. Poucos dias depois, reportagem da Folha (só para assinantes) mostrava que cerca de uma centena psicólogos, advogados, antropólogos e educadores procurava, através de um abaixo-assinado, impedir um grupo de neurocientistas de levar a cabo pesquisa que pretende esquadrinhar o cérebro de 50 adolescentes homicidas de Porto Alegre em busca de marcadores biológicos.

Investidas anticientíficas não são propriamente uma novidade, que o digam Giordano Bruno e Galileu Galilei. Mesmo em tempos de maior liberdade intelectual, como a Grécia Antiga, experimentadores do quilate de Eratóstenes e Arquimedes enfrentavam um certo desdém de filósofos puramente especulativos, então mais afinados com o "Zeitgeist". O inquietante no caso brasileiro é que os ataques partam, senão de aliados, ao menos de grupos e instituições que deveriam em tese apoiar a ciência. Afinal, Marina Silva, na condição de ministra, representa o Estado brasileiro. Já psicólogos, antropólogos e pedagogos, embora não costumem militar nas fileiras da "hard science", são --ou deveriam ser-- aquilo que antigamente chamávamos de "Geistwissenschaftler", ou seja, simplificando um pouco, cientistas sociais, os quais deveriam, pelo menos etimologicamente, estar comprometidos com o método científico.

Comecemos pelo caso mais gritante, que é o dos patrulheiros epistemológicos. De minha parte, considero a neurociência um campo fértil e promissor, do qual tem emergido muito material interessante para "insights" e reflexões. Admito, entretanto, que nem todo mundo precisa pensar como eu. É perfeitamente possível tachar sociobiologia, psicologia evolutiva e genética como "reducionistas" --o que quer que isso signifique. Mais até, é legítimo preocupar-se com o efeito que determinadas descobertas possam ter sobre a sociedade. Imagine-se, por hipótese, que se desenvolva um método de diagnosticar, ainda antes do nascimento, indivíduos mais propensos a tornar-se criminosos quando adultos. Tais embriões poderiam ser abortados? Se sim, por decisão de quem? Do Estado? Dos pais? São questões apaixonantemente controversas. E, por mais intransigentes que possamos ser na defesa da vida e da pluralidade humanas, nada justifica deixar de realizar um estudo cujos protocolos éticos se mostrem adequados, como é o caso do experimento gaúcho. Ele não implica nenhum risco ponderável para as "cobaias" e só ocorrerá se os pesquisadores obtiverem o consentimento esclarecido dos jovens e de seus pais ou responsáveis e também a autorização da Justiça.

Não é porque os nazistas cometeram atrocidades evocando a genética --equivocadamente, ressalte-se-- que devemos renunciar a compreendê-la. Se um dia investigações nesse campo levarem a tecnologias eugênicas, precisaremos discutir caso a caso a moralidade de sua aplicação. De minha parte, como princípio geral, acho que pais devem poder escolher se vão ou não ter filhos com determinadas doenças incapacitantes.

Qualquer que seja nossa posição pessoal, quer acreditemos que a vida é um dom de Deus, quer a consideremos o encontro inopinado de átomos de carbono com um pouco hidrogênio e oxigênio, não faz muito sentido que um cientista social --ou qualquer outra pessoa minimamente ilustrada-- se oponha à realização de um experimento capaz de ampliar nosso conhecimento por temor das implicações que tal conhecimento possa ter. Se os nossos solertes "Geistwissenschaftler" estão tão certos de que a empreitada dos neurocientistas dará com os burros n'água --possibilidade bastante real-- que critiquem, como convém ao método científico, os resultados do experimento, não sua realização. Se estão tão certos de que a neurociência encerra o ovo da serpente, que o demonstrem com base em evidências e encadeamentos lógicos, não com ilações e palavras de ordem. Minha sensação é a de que essa gente, ao defender a proibição pura e simples, repete os argumentos com os quais a Igreja Católica impedia a dissecação de cadáveres e promovia outros vetos francamente obscurantistas.

Voltemos agora ao mais delicado caso do criacionismo ministerial. Marina Silva tem, como cidadã, o direito de professar a fé que bem desejar. Mais até, não é porque se tornou ministra de um Estado nominalmente laico que precisaria deixar de comparecer aos cultos de sua igreja, a Assembléia de Deus. Ela, entretanto, avançou o sinal quando participou do 3º Simpósio sobre Criacionismo e Mídia, promovido pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo, e, à saída, ainda deu uma entrevista na qual, no melhor estilo dos "neocons" dos EUA, sustentou que visões de mundo criacionistas devem ser ensinadas nas escolas, para que os alunos possam decidir por si mesmos.

Estamos aqui diante de dois problemas. Em primeiro lugar, Marina deveria ter-se recusado a participar do evento, pela simples razão de que não foi convidada para falar na condição de simples fiel da Assembléia, ou teóloga, mas sim por ser ministra do Meio Ambiente, ou seja, uma representante do Estado. E, nos termos do artigo 19 da Constituição, é vedado ao Estado "estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança". Essa, entretanto, é a falta menos grave, que seria facilmente perdoável, se a ministra não tivesse em suas declarações abraçado também a pedagogia ultraconservadora, que pretende transformar fatos comprováveis em comprovados em questões abertas a escrutínio religioso.

Não conheço as opiniões hidrostáticas do papa, mas não importa o que ele pense ou decrete acerca da fervura da água, o fato é e será que, em condições normais de temperatura e pressão, ela ferve a 100ºC. De modo análogo, independentemente do discurso religioso, as bases gerais da teoria evolutiva mais ou menos como postulada por Charles Darwin no século 19 estão cabalmente comprovadas. Falácias criacionistas não vão mudar isso. O rol de evidências pró-Darwin é extenso. Vai da totalidade do registro fóssil até aqui coletado --e nunca falseado por nenhum despojo geologicamente impossível_ até a capacidade de fazer previsões sobre o futuro, como o surgimento de cepas de bactérias resistentes a novas classes de antibióticos.

O criacionismo em sua mais nova roupagem --o tal do design inteligente-- sustenta que a evolução é "apenas" uma teoria e cheia de supostas dificuldades, como se tudo em ciência não fosse "apenas uma teoria", aí incluída a teoria da gravidade. Seu argumento básico é o de que seres vivos são complexos demais para ter surgido "por acaso": se eu encontro um relógio, a sutileza e a precisão das roldanas e engrenagens, me autoriza a supor um relojoeiro; de modo análogo a arquitetura de estruturas como asas e olhos permitiria inferir um Criador.

"Non sequitur", que, em bom português, significa: é pura bobagem, coisa de quem não entendeu (ou fingiu que não entendeu) o bê-á-bá do darwinismo. Embora mutações nos seres vivos de fato ocorram aleatoriamente, a seleção subseqüente --que conserva o que é útil e despreza o que não o é-- nada tem a ver com acaso. Ela é, se quisermos, o avesso do acaso. Trata-se, na verdade, de um dos poucos processos naturais que conseguem simular o trabalho de projetistas. Só que funciona ao contrário. Ao preservar traços mesmo que milimétricos de utilidade e descartar todas as mutações que não servem para nada (a maioria delas resulta em cânceres, é oportuno lembrar), a seleção consegue, ao longo de inúmeras gerações, produzir estruturas que passam por entidades concebidas por uma inteligência.

O que o criacionismo faz é, apoiando-se nessa ilusão, impingir raciocínios capengas que soarão convincentes a alunos com pouco treinamento epistemológico e já socialmente orientados a "aceitar a palavra de Deus". Admitir que padres e pastores profiram tais sandices em epistemológicas em seus templos é uma necessidade democrática. Mas não faz nenhum sentido repeti-las nas salas de aula de um Estado laico. Fatos sobre o mundo não são matéria que se decida com base em convicções pessoais ou maiorias.

E, infelizmente, os neocriacionistas não se contentam em acreditar em Deus. Querem, sabe-se lá por qual motivo, revestir seu delírio de vestes científicas. Só que estas não lhe cabem.

O grande erro da comunidade científica norte-americana foi ter esperado tempo demais antes de reagir às investidas criacionistas, deixando que o discurso pseudocientífico e aparentemente democrático prosperasse e ganhasse terreno. Infelizmente, nós, no Brasil, estamos repetindo esse equívoco. Vale lembrar que o pio casal Garotinho já introduziu o ensino do criacionismo nas escolas da rede pública do Rio de Janeiro. Consertar as coisas agora será um deus-nos-acuda.

Não deixa de ser irônico que os mesmos sociólogos, advogados e psicólogos que até há pouco se erigiam em defensores máximos das liberdades agora propugnem pela censura a pesquisas, e os mesmos religiosos criacionistas que poucos séculos atrás queimavam livros e pessoas agora recorram à liberdade de pensamento para apregoar tolices na escola pública. Não acredito em deuses, mas, é forçoso reconhecer que eles têm um senso de humor infernal.

Fonte: Folha de São Paulo.

A Pesquisa Maldita - A Opinião de Moacyr Scliar

A ciência em debate
Moacyr Scliar - 29/01/2008

Biopsicossocial é uma expressão muito usada. E significativa. Para começar, observem a ordem dos três componentes. Primeiro vem o biológico, que é a coisa mais básica, aquilo que partilhamos com um réptil ou um inseto: os órgãos, as funções corporais. Depois vem o psíquico, que é a introdução à nossa humanidade: o pensamento, as crenças, os sentimentos. E por último o social, que coroa a nossa evolução histórica e cultural. Entre o biológico e o social está o psíquico. Freqüentemente numa posição desconfortável, como já veremos.

Na semana passada um debate surgido em Porto Alegre propagou-se pelo país. Trata-se da proposta de uma pesquisa científica, que começará com jovens delinqüentes e que tem por objetivo investigar as raízes da criminalidade. A investigação inclui mapeamento cerebral, uma técnica atualmente muito utilizada e que, aparentemente desencadeou a polêmica. Resumindo: o estudo foi criticado porque privilegiaria os aspectos biológicos, enveredando assim por um caminho que, no passado, levou ao racismo e à eugenia, ou seja à seleção (às vezes pelo simples assassinato) de indivíduos mais sadios. Teorias mais recentes, como a sociobiologia, popularizada nos anos setenta pelo pesquisador americano Edward O. Wilson, também tentam explicar o comportamento humano e social com base na evolução biológica e na genética. Estas idéias foram contestadas por Richard Lewontin e Stephen Jay Gould. Surgiu daí a idéia de que os defensores do biológico são de "direita" (com muitas aspas), enquanto que aqueles que valorizam o social são de "esquerda" (idem). Mas nem sempre foi assim. Tomem o caso de Darwin, por exemplo, em quem Wilson se baseou. O cientista inglês era considerado um radical contestador, inclusive e principalmente porque contrariava a doutrina do criacionismo. Mais tarde, a tese da sobrevivência do mais apto passou a ser utilizada por ideólogos neoliberais. Resultado: darwinismo social é uma expressão execrada pela esquerda.

No caso dos estudos do cérebro, a polêmica é outra. De um lado a idéia segundo a qual é no cérebro (na química cerebral) que devemos procurar a origem de problemas mentais e emocionais, tratando-os com medicamentos, se for o caso - uma idéia que tem o poderoso apoio do seguro-saúde norte-americano e da indústria farmacêutica. De outro, estão aqueles que defendem a psicoterapia como um tipo de relação humana capaz de ajudar as pessoas. De novo, é o psicológico entre o biológico e o social.

Agora: notem que estas coisas não são excludentes. Uma discussão mais serena, mais desapaixonada, pode mostrar os limites do biológico, do psicológico e do social. O importante é avaliar os fatos, não as conotações. No caso da pesquisa científica, e exatamente por causa das barbaridades cometidas pela ciência nazista, temos hoje os comitês de ética, cuja atividade é importante e não raro decisiva. Mas o debate que o assunto suscitou foi e é útil. Da discussão sempre nasce a luz; ruim é o apagão da intolerância. Como disse Darwin numa carta a seu admirador Karl Marx: "I believe that we both earnestly desire the extension of knowledge", "Acredito que nós dois honestamente desejamos a ampliação do conhecimento."

Fonte: Notícias do CRP-RS.

A Pesquisa Maldita - A Opinião de uma Antropóloga Social e uma Educadora

No dia 5 de janeiro, submetemos à apreciação da Folha de S.Paulo o artigo que se segue, a respeito de discussões inspiradas na reportagem de Rafael Garcia sobre uma pesquisa no Rio Grande do Sul com "adolescentes homicidas". Dois dias depois recebemos uma manifestação de interesse de Rafael Garcia, repórter do setor "Ciência", dizendo que "não tinha idéia de que o assunto tivesse repercutido tanto, já que esta é a primeira carta que nós recebemos aqui na editoria de ciência sobre essa reportagem". No dia 10, fomos convidadas a submeter uma versão abreviada de nosso texto (3.800 toques) para ser publicada no Caderno Mais do próximo domingo, junto com outros artigos sobre o tema. Aceitamos fazer a redução solicitada. Sábado, dia 19, o repórter entrou em contato para dizer que o artigo sairia só na segunda-feira, e – devido a um anúncio que tinha entrado na página – devíamos cortar imediatamente mais 10 linhas. Não querendo agir de forma leviana, e considerando que uma das autoras estava em viagem, informamos que não seria possível efetuar os cortes nesse curto prazo.

Foi com grande interesse que acompanhamos a publicação das matérias na segunda, dia 21 de janeiro. Contudo, estranhamos o editorial de 22/1 em que a FSP ataca um grupo de pesquisadores e ativistas que se assustaram com os termos da pesquisa tal como foi retratada pela Folha. Sem fazer referência ao artigo original que fala em mapear o cérebro de "adolescentes homicidas" para descobrir "como se produz uma mente criminosa", o editorial descreveu a pesquisa já em termos mais sofisticados. Falou em "jovens sob custódia do Estado que cometeram homicídios"; entrou Descartes, saiu "a mente criminosa". Com isso, os editores eximiram-se de qualquer responsabilidade pelo tom acalorado do "repúdio". Em vez de mediar um debate necessário, a Folha optou por acirrar a celeuma criticando um bate-boca que ela mesma criou.

Acompanhando o andamento da ciência, para além do consentimento informado

Claudia Fonseca - Doutora em Antropologia, Professora do PPGAS/UFRGS
Carmem Maria Craidy - Doutora em Educação, Professora do PPG-EDU/UFRGS
28/01/2008

Saiu no dia 26 de novembro uma matéria na Folha de São Paulo sobre uma pesquisa envolvendo cientistas universitários e representantes da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul que se propõem a mapear os cérebros de 50 adolescentes homicidas (a serem comparados com os cérebros de 50 adolescentes não-infratores) e, assim, descobrir como se produz uma mente criminosa. Desde então, circula na Internet, na grande imprensa e em outros fóruns públicos uma discussão acalorada, a favor e contra a proposta. Defensores do projeto, sublinhando as respeitáveis credenciais de seus autores, expressam o receio de que ataques precipitados acabem por cercear a autonomia da ciência. Críticos sugerem que o princípio de autonomia jamais exime o pesquisador da responsabilidade de avaliar as implicações morais e éticas de seus procedimentos. Devemos lembrar que a maioria de nós não conhece a proposta original. Mas é justamente por causa das idéias que estão sendo veiculadas pela mídia que cabe certo trabalho de esclarecimento.

Uma pesquisa sobre adolescentes homicidas levanta inquietações de diversas ordens. Em primeiro lugar, o foco em infratores institucionalizados arrisca reforçar preconceitos que supõem uma relação intrínseca entre cor, classe e comportamento anti-social. Sabemos, por exemplo, que no Rio e em outras metrópoles a polícia é responsável por boa parte das mortes violentas. Porém, a maioria de nós acharia absurdo fazer ressonância magnética para checar tendências violentas nos cérebros desses profissionais. Além disso, é pouco provável que eles ou seus superiores institucionais aceitassem participar de tal pesquisa. Saberiam que a simples notícia dessa investigação com sua premissa de uma tendência fisio-biológica à violência bastaria para reforçar preconceitos contra a polícia.

Por que aceitar essa pesquisa tão facilmente entre adolescentes privados de liberdade? Porque nos abrigos, como nas cadeias, concentram-se as pessoas que menos têm voz, não por causa de alguma tendência inata, mas porque quanto mais pobre e escuro for o acusado de qualquer crime, maiores serão suas chances de ser detido, condenado e encarcerado. O próprio funcionamento do sistema cria dentro das instituições uma amostra questionável mais representativa de pobres e discriminados do que de qualquer inclinação criminosa. Daí a segunda inquietação: esses indivíduos estão em condições de negociar os termos de sua participação numa pesquisa acadêmica?

Depois da Segunda Guerra Mundial e da constatação de atrocidades perpetradas por cientistas do regime nazista, a comunidade científica mundial se viu incumbida -- em Genebra, Nuremberg, Helsinque -- de estabelecer as bases éticas de sua prática. No alto na lista de prioridades constava o princípio de que nenhum sujeito humano deveria ser incluído numa investigação sem ter compreendido e assentido, livre de qualquer coerção, aos riscos e objetivos da pesquisa. Num primeiro momento, reinava uma crença ingênua de que regimes autoritários tinham o monopólio da má ciência. O espírito crítico, a transparência e a neutralidade, vistos como atributos típicos das democracias ocidentais, seriam os ingredientes necessários e suficientes para o bom desenvolvimento científico. Foi um médico da Universidade de Harvard, Henry Beecher, o primeiro a levantar suspeitas quanto à ética de pesquisa no seio da democracia. Em 1966, ele publicou um levantamento de 22 projetos desenvolvidos por cientistas qualificados e bem-intencionados em que os seres humanos examinados tinham sido, de alguma forma, prejudicados pela pesquisa. Uma das críticas mais alarmantes era que os sujeitos pesquisados faziam parte de populações que não tinham condições de recusar participação: recrutas militares, portadores de deficiência mental, idosos... Seguindo nessa linha de reflexão, a investigação científica envolvendo adultos ou adolescentes privados de liberdade seria ainda mais preocupante. Pergunta-se: esses indivíduos estão em condições de negociar os termos de sua participação numa pesquisa acadêmica? Trata-se de uma questão ética que vai muito além da assinatura em um formulário de consentimento informado.

Certamente, é do interesse de adolescentes privados de liberdade receber todos os benefícios de tratamento e terapia que o aparelho estatal tenha a oferecer. O problema não é aplicar testes para realizar programas voltados para o bem-estar dos indivíduos em questão. O perigo surge quando projetamos generalizações a partir de casos individuais, usando estereótipos que envolvem aspectos de cor e de classe para formular as hipóteses e orientar as interpretações.

Se, por ventura, fosse constatada uma desproporção de jovens com problemas neurológicos no grupo de adolescentes homicidas, caberia então localizar, como grupo de controle, adolescentes não-infratores com problemas semelhantes. Investigar os fatores que levaram ao relativo sucesso destes últimos apontaria para as condições sociais (terapêuticas e outras) relevantes para a realização individual e o entrosamento na vida social. Sem esse cuidado metodológico, o problema da pesquisa se transforma em tautologia, garantindo de antemão conclusões que ligam patologia médica com comportamento anti-social.

Há no Brasil inúmeros centros de estudos interdisciplinares que reúnem pesquisadores para tentar entender o fenômeno da violência. Já demonstraram, com farta ilustração empírica, o impacto de fatores tais como qualidade de educação, possibilidades de renda, atividades de lazer e cultura, acesso ao consumo e busca de visibilidade social. Sem dúvida, concordariam que a violência é um problema de saúde pública, mas insistiriam que a saúde envolve muito mais do que eventuais problemas cerebrais. Preocupados com as conseqüências políticas e éticas da pesquisa, eles evitariam termos reducionistas (adolescente homicida, mente criminosa) que arriscam reforçar o estigma contra as pessoas pesquisadas.

Enfim, o saber científico não se constrói em termos maniqueístas. Pesquisadores de todas as áreas lidam com dilemas éticos que não são de fácil solução. A presente polêmica, ao relevar as inevitáveis facetas políticas e morais de qualquer pesquisa, tem o efeito salutar de ampliar o círculo de interlocutores, alertando inclusive os leigos para a necessidade de acompanhar de mais perto o andamento da ciência.

A Pesquisa Maldita - Reportagem no Fantástico

Como uma pessoa inteligente pode perceber, se um assunto vira reportagem do Fantástico, é porque está chamando a atenção no Brasil inteiro. E foi o que aconteceu com a polêmica dessa pesquisa neurológica com os meninos da FASE, na edição de 27 de janeiro de 2008 do Fantástico. Não que a reportagem em si seja boa, bem pelo contrário: é uma porcaria extremamente superficial. Mas como saiu no Fantástico, tá na boca do povo, e provavelmente influenciou a opinião de muita gente por aí. Repasso uma transcrição da reportagem, que encontrei no site do CRP-RS, e o vídeo da reportagem. Só recomendo o vídeo para quem era no ensino médio o pirralho que só olhava as figuras dos livros.

Pesquisa polêmica é abordada no Fantástico
* Vinicius Donola, repórter

O que se passa na cabeça de um ser humano que é capaz de tirar a vida do outro? Será que os atos de extrema violência e barbárie são cometidos por mentes que nascem doentias? Ou não? São as mentes que adoecem com os traumas da vida, com a violência em casa, na rua.

"Esse cérebro desse delinqüente, ele sofreu, ele mudou, ele é diferente? Vamos investigar", diz Mirna Portuguez, neuropsicóloga da PUCRS.

Essa é a proposta dos cientistas de duas grandes universidades do Rio Grande do Sul. Usar exames de alta tecnologia para mapear o cérebro de um grupo de jovens. Todos envolvidos em ações violentas."O objetivo é conhecer um pouco melhor como a estrutura cerebral pode, eventualmente, estar envolvida nesses processos que geram violência", explica Jaderson Costa, pesquisador também da PUCRS.

Mas a reação da comunidade científica foi imediata."Estamos tratando de pessoas. Adolescentes. Não são ratos, não são macacos. São pessoas”, acusa Ana Luiza de Souza Castro, psicóloga, do juizado de menores do Rio Grande do Sul. Sociólogos, educadores, advogados também assinaram um manifesto. Afirmam que a pesquisa mascara o que chamam de "velhas práticas de extermínio e exclusão". Os idealizadores do estudo se defendem."É lamentável, porque nós não estamos fazendo nada além do que ampliar a informação sobre o assunto. A quem interessa proibir isso?", Osmar Terra, secretário de Saúde do Rio Grande do Sul.

Esta semana, o Fantástico conheceu o lugar onde vivem os jovens que podem ser alvo da pesquisa. A antiga Febem, na capital gaúcha, onde há 680 internos. Menores que foram detidos por roubo, tráfico e homicídio.

Os pesquisadores de Porto Alegre querem examinar 50 jovens, entre 15 e 21 anos, numa máquina que faz a ressonância magnética funcional. Ela mostra o cérebro em funcionamento. Com este exame, o grupo de cientistas espera descobrir o que há de diferente no cérebro de um jovem homicida.

Dentro da máquina, os jovens serão submetidos a seqüências de imagens e sons violentos. Usando a ressonância, os neurocientistas esperam comprovar uma suspeita. A de que os homicidas têm partes do cérebro atrofiadas, reduzidas de tamanho. A mais importante delas é o lobo-frontal. É ele que controla os nossos impulsos.Na teoria, uma pessoa com atrofia do lobo-frontal tem mais dificuldade para conter seus instintos. Um traço que seria típico do comportamento assassino.

Aí, vem a crítica:"Bom, se for identificado no cérebro do sujeito que ele tem lá uma tendência para um comportamento violento, como que nós vamos controlar isso? Nós vamos medicar essa pessoa? Nós vamos colocar ele dentro de algum lugar?", questiona Karen Eidelwein, do Conselho de Psicologia do Rio Grande do Sul.

Nós vamos usar essa informação para procurar alternativas de prevenção e até curativas, se possível, tratar esses indivíduos. Repor essas necessidades que eles têm no momento", diz Mirna Portuguez, neuropsicóloga da PUCRS.

Um outro passo da pesquisa também está gerando polêmica. Especialistas em genética querem colher amostras de sangue dos jovens que mataram, para exames de DNA. A pergunta é: será que alguns de nós nasceram predispostos para a violência?

"Pessoas violentas, talvez, um bom número delas, apresentam variações nos genes que as tornaram frágeis. Elas sofrem mais, e, como resposta ao sofrimento, acabam desenvolvendo comportamentos mais violentos em função do que sofreram", é o que diz o geneticista da UFRGS, Renato Flores. "A história sabe como tem acabado esse tipo de ciência. De alguma forma, me lembra os tipos criminosos de Cesare Lombroso", diz Ana Luiza.

Lombroso foi um médico italiano que viveu no século 19. Ele acreditava que determinadas medidas do corpo, como o tamanho da mandíbula e os contornos do crânio indicavam se uma pessoa nascia com propenção para a delinqüência. Mais tarde, os nazistas se apropriaram da obra de Lombroso e mandaram milhares de pessoas para campos de concentração, com base nas medições cranianas."Não podemos utilizar alguns argumentos do passado sobre erros cometidos, ou de interpretação, ou de atuação, de terapêutica, etc. Misturar isso com essa pesquisa", rebate Jaderson.

A pesquisa só pode começar depois de a proposta ser analisada por uma comissão científica de professores universitários e por um comitê de ética.O Juizado de Menores ainda não informou se vai ou não permitir o estudo com os jovens da antiga Febem. Só serão examinados voluntários, com autorização dos pais."Acho que tem implicações éticas que merecem uma discussão, que é o que está acontecendo", finaliza Ana Luiza.

Vídeo --> AQUI.

A Pesquisa Maldita - Outro Debate: Zero Hora

Pesquisa com adolescentes gera debate

Confira dois artigos que debatem o projeto de pesquisa com adolescentes da Fase, publicados no jornal Zero Hora, edição de 26 de janeiro de 2008.

Miséria social, pseudociência e arrivismo, por Luis Guilherme Streb*
*Psiquiatra

Trabalhei quase três anos na Fase. Diariamente atendia 10 a 15 internos. Conheci centenas de jovens, cada um com várias consultas. Felizmente havia pouquíssimos homicidas. No início, eu mesmo me intimidava um pouco, mas controlei meus sentimentos e conseguia conversar com eles. Seus crimes aconteceram nas mais variadas circunstâncias, sempre relacionadas com tráfico e uso de drogas, vingança, roubo ou alguma doença cerebral prévia, como epilepsia ou retardo mental. Todos vinham de famílias desintegradas e violentas, e viviam há anos sob as mais difíceis condições psicossociais. O cenário geral confirma várias pesquisas em muitos lugares: existe uma relação causal direta entre privação afetiva ou abuso na infância e condutas sociopáticas na adolescência. Além disso, existe um agravante social importante no Brasil: a falta de cultura, ou seja, nos falta um conjunto de crenças e práticas comuns que promovam o desenvolvimento pessoal e a coesão social, e que estimulem a educação e a segurança dos indivíduos. Prova eloqüente disto é o número enorme de servidores públicos, políticos, administradores e cidadãos comuns presos todos os dias por conduta criminosa.

Escrevo sem conhecer o projeto de pesquisa recentemente noticiado, envolvendo adolescentes da Fase (fica a sugestão de disponibilizá-lo em algum site, se ainda não está, principalmente se for financiado por dinheiro público). Como um bom projeto de pesquisa, deve apresentar uma hipótese. Qual é? Depreendo que esta hipótese possibilite encontrar correlações estatisticamente significantes entre genética e neurologia e comportamento violento, segundo o texto da reportagem na ZH de 24 de janeiro. A julgar pela notícia no site da Associação Paulista de Medicina, existe grande confusão conceitual entre os envolvidos, além de uma situação política, o que aliás complica deveras uma pesquisa que pretende ser ciência isenta. Termos como "políticas públicas" e "prevenção" já são usados antes mesmo dos resultados da pesquisa.

Se for assim, a idéia, cientificamente, é obtusa e bizarra (seus aspectos políticos merecem análise mais detalhada). É como chover no molhado ou reinventar a roda. Os determinantes psicossociais do comportamento agressivo já são sobejamente conhecidos através dos inúmeros trabalhos já publicados, aqui e mundo afora. Fatores orgânicos, genéticos e neurológicos também já são conhecidos, verificados em amostras de indivíduos muito mais adequadas do que esta em questão. Previsivelmente, revelaram-se com peso ínfimo e desprezível em comparação com os fatores familiares e psicossociais no contexto populacional geral. Introduzir adolescentes em tubos de ressonância nuclear para ver seus cérebros, ou determinar seu genoma, é um disparate em nosso contexto de carência de recursos; principalmente diante das histórias de vida desses guris que não tiveram nada de bom na vida.

Suponhamos que os cientistas professores doutores políticos encontrem lesões cerebrais ou defeitos genéticos em seus probandos. Como avaliar? Como entender? Como "pesar"? Explicaria a epidemia assassina e sociopática em que vivemos? Isto deve estar detalhado no projeto.Diante do sarcasmo de um sábio geneticista local, só nos resta concluir que alguns cientistas têm, sim, sua função mental no pé.

Resistência à ciência, por Homero Dewes*
*Professor do Instituto de Biociências, UFRGS

Enquanto um neurobiologista brasileiro que trabalha nos Estados Unidos tem seu feito científico celebrado mundialmente, ao expressar processos mentais em movimentos robóticos, dois neurobiologistas brasileiros que trabalham em universidades de Porto Alegre estão tendo suas pesquisas execradas por um grupo de profissionais do campo das ciências sociais que repudiam os avanços da neurobiologia no estudo do comportamento humano.

Para os signatários da nota de repúdio aos estudos da atividade neurológica de adolescentes infratores, proposta por pesquisadores da PUCRS e da UFRGS, aparentemente, as questões científicas relativas ao comportamento juvenil brasileiro já foram todas resolvidas pela legislação em vigor, a qual determina que a violência juvenil seja resultado das vicissitudes sociais, políticas e econômicas da sociedade brasileira injusta e que nada tem a ver com a atividade cerebral dos indivíduos envolvidos.

Para quem pouco tempo ou interesse tem de acompanhar os avanços científicos, seja nas disciplinas do seu próprio campo de trabalho, seja em outros campos, pode ser novidade saber que um dos temas de pesquisa apontados pela comunidade científica internacional dentre os mais dinâmicos e promissores para este século é o estudo e o entendimento das bases biológicas da consciência. Nesta fronteira científica está o entendimento dos processos neurológicos associados aos sentidos, aos sentimentos e ao instinto da moral. Com as tecnologias de ressonância hoje disponíveis, a cada dia mais se aprende sobre o que se passa no cérebro, a cada memória, a cada desejo e a cada ação. Obstruir no país a pesquisa em neurobiologia comportamental é pretender banir das nossas universidades a pesquisa científica contemporânea e de vanguarda, condenar a ciência social brasileira à marginalidade e o profissional social brasileiro ao obscurantismo.

Num país em que organizações não-governamentais destroem campos experimentais impunemente e em que laboratórios científicos são queimados criminosamente, a emergência de oposição fanática e organizada à neurobiologia comportamental no país é um processo muito sério e potencialmente catastrófico para a ciência, para os cientistas e para o povo brasileiro. Melhor seria, para todos nós, se abríssemos nossas cabeças para novos conhecimentos e aprendêssemos a celebrar com orgulho os feitos dos cientistas brasileiros, enquanto realizados na sua própria terra.

Fonte: Notícias do CRP-RS.

A Pesquisa Maldita - A opinião de Karen Eidelwein

Pesquisa "cerebral" com adolescentes
25/01/2008 - Direitos Humanos

O crescimento dos discursos sobre violência e criminalidade anda de mãos dadas com uma cultura biologizada que desloca a atenção da necessidade de reformas sociais para o âmbito individual, com o argumento de proteger a população "normal" dos "indivíduos ameaçadores", como se a criminalidade estivesse inscrita no corpo dos sujeitos. A questão que deveria nos ocupar seriamente é o que essa população chamada "normal" tem feito pelos ditos "indivíduos perigosos".

Diante disso, vimos por meio deste manifestar nosso repúdio ao projeto de pesquisa a ser desenvolvido por pesquisadores de duas instituições de Ensino Superior da capital gaúcha que propõe mapear o cérebro de adolescentes que cumprem medida socioeducativa devido a homicídios praticados, tendo como objetivo investigar "a base biológica da violência". Questionamos os efeitos e as possíveis conseqüências do referido estudo em função de sustentar e fomentar um entendimento maniqueísta, reducionista e individualista das questões que envolvem o tema da criminalidade.

Inscrever a questão da violência no cérebro desses adolescentes traz ainda uma ameaça de afronta ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), pois, na medida em que se biologiza a questão, que tipos de alternativas ou tratamentos serão propostos para "controlar" esses indivíduos? O que será feito daqueles que, submetidos aos poderes e técnicas científicas, tiverem uma condição biológica que os coloca como "inimigos da sociedade"? Para além de reeditar aspectos de um controle biológico da população, do século passado, criando subpopulações de pessoas propensas ao crime, os discursos atuais da manipulação biológica podem ostentar uma promessa de segurança pública pautada no controle e alteração dessa condição pela utilização de técnicas que poderão facilmente envolver o aumento da utilização de psicofármacos, de eletroconvulsoterapias e de medidas cada vez mais punitivas e repressivas.

Precisamos ir além de dicotomias sobre achar causas biológicas ou sociais para entender as relações de poder, éticas e políticas que estão envolvidas na questão da violência e da criminalidade. Diante do tipo de estudo que está sendo proposto e dos resultados que dele poderão advir, é imprescindível questionar quais os benefícios e os beneficiários da pesquisa; quais as ameaças e ganhos advindos e quem sofrerá seus efeitos; quais os custos e quem arcará com os mesmos. Enfim, é necessário discutir, para além das capacidades técnicas e metodológicas da ciência, as questões políticas e éticas que devem orientar qualquer pesquisa, principalmente quando envolve pessoas já tão violentadas na sua dignidade. Um dos questionamentos viáveis neste contexto é sobre a escolha dessa população como "os" responsáveis pela violência contemporânea, utilizando critérios meramente jurídico-penais ou até mesmo raciais e morais.

Acreditamos que a questão criminal na contemporaneidade deva ser tratada na sua complexidade, sendo impossível chegar a certezas absolutas, objetivas e observáveis, tanto química quanto biologicamente, sobre a subjetividade humana, através da utilização de métodos exclusivos das ciências naturais a fim de produzir "verdades" unilaterais para algo que é de outra ordem.

Karen Eidelwein
Presidente do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul

Fonte: Notícias do CRP-RS.

A Pesquisa Maldita - A Opinião de Ivan Izquierdo

Infância de jovens homicidas será foco de pesquisa
*Matéria publicada no jornal Zero Hora, em 25 de janeiro de 2008.

Embora a proposta de exame do cérebro tenha levantado polêmica nacional sobre um projeto de pesquisa gaúcho com jovens homicidas, especialistas esclarecem que são os cuidados na infância que formam um dos pontos cruciais do trabalho.

Uma das hipóteses que deverão ser testadas é a de que o estresse continuado durante os primeiros anos de vida predispõe à agressividade.Se aprovada pelos comitês de ética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Pontifícia Universidade Católica - apesar da avaliação de um grupo de psicólogos, advogados e representantes de ONGs expressa em abaixo-assinado de que a iniciativa estigmatiza os infratores - , a pesquisa vai procurar as origens do comportamento violento de internos homicidas da Fundação de Atendimento Socioeducativo do Estado (Fase).Um dos responsáveis pelo trabalho, o professor do departamento de Genética da UFRGS Renato Zamora Flores, aposta que uma das conclusões será a importância dos cuidados nos primeiros anos de vida.- Minha hipótese é de que os eventos relacionados com o comportamento violento serão os maus-tratos e o estresse nos primeiros anos de vida. O estresse continuado levanta o nível do hormônio cortisol que, nos primeiros anos, esculhamba o cérebro - avalia.

A avaliação deverá incluir entrevistas com familiares e testes com 50 internos a fim de avaliar condições sociais, psicológicas, genéticas e psiquiátricas que ajudem a explicar a agressividade juvenil. Se aprovada, a pesquisa deve começar em março.

Sobre a liberdade de pesquisar
Vários dos principais pesquisadores em neurociência do comportamento do país, pertencentes à UFRGS e à PUCRS, elaboraram um projeto de pesquisa que visa a estudar aspectos do funcionamento cerebral que possam estar relacionados à violência. Haja visto a enorme incidência desta no Brasil, sabidamente um dos países mais violentos do mundo, e o fato de que a neurociência estudou durante décadas os mecanismos cerebrais vinculados com a violência em animais, o projeto é sem dúvida de grande interesse. O projeto visa também a avaliar a participação de aspectos sociais e socioeconômicos na violência no país.

Chama poderosamente a atenção que um reduzido grupo de sociólogos e psicólogos (101 pessoas ao todo) não vinculados à atividade científica tenha emitido publicamente uma forte opinião contrária à realização desse projeto. No melhor estilo da censura prévia da Espanha da Inquisição, da Alemanha de Hitler, da Rússia de Stalin, ou da Romênia de Ceausescu. Se opõem ao projeto em si, e algum deles promete exercer essa oposição "ao nível que for preciso": jurídico, etc. Alegam que o projeto é elitista, talvez porque na sua fase inicial estudará internos da Fase - ex-Febem. Não comentam o fato de que o mesmo prevê o estudo de outros indivíduos numa fase seguinte, inclusive "filhinhos de papai". Alegam que é "triste a universidade que ainda se mobiliza para esse tipo de estudo", ignorando que é justamente a função dela realizá-los; duas universidades, neste caso. Certamente não é função dos leigos opinar sobre o assunto sem ter base para tanto. Os 101 assinantes prevêem conclusões fatídicas desse estudo, que não foi ainda sequer começado. Não o leram em detalhe, porque se o tivessem feito, teriam percebido que o projeto prevê estudos sociológicos e socioeconômicos também, em paralelo.

Este é um momento em que parece renascer o obscurantismo no Brasil que julgávamos desaparecido com a implantação da República. Ao mesmo tempo em que não-cientistas emitem virulentas declarações sobre ciência, como esta dos 101 assinantes mencionada acima, surgem grupos de antiviviseccionistas, grupos de opositores ao uso de fármacos ou vacinas para o tratamento das doenças etc.

Felizmente, a reação da grande imprensa a essas críticas desvairadas e amadorísticas foi rápida no caso do projeto do estudo da violência. A imprensa percebeu que aqui, no caso de um problema de tanta importância, o certo não é proibir "a priori" aquilo que se desconhece, senão investigá-lo. Quanto mais o façam, melhor será a possibilidade da procura de soluções, a diversos níveis. Espero que o projeto dos professores Jaderson da Costa (PUCRS) e Renato Zamora Flores (UFRGS), e do secretário de Saúde do Rio Grande do Sul, Osmar Terra, seja bem-sucedido. Trará luz a um problema que deve ser abordado de muitos ângulos, e só assim encontrará solução alguma vez. Evidentemente, já que o cérebro é o órgão que organiza, decide e comanda os atos de violência, é útil saber como o faz. Jogar uma ideologia em cima de semelhante problema será simples, mas não tem trazido resultados até agora; nem no Brasil nem em parte alguma do mundo.

"IVAN ANTONIO IZQUIERDO Integrante do Centro de Memória da PUCRS e da Academia Brasileira de Ciências

Fonte: Notícias do CRP-RS.